Reflexões Daladier Lima

A ética do ódio, as fake news e a idoneidade cristã

Analise com Paul Freston como as fake news impactam a ética cristã. Será que os evangélicos estão fora do grupo de risco das mentiras virtuais?

A ética do ódio, as fake news e a idoneidade cristã

Por Paul Freston*

Segundo um famoso ditado, a perspectiva iminente do enforcamento facilita enormemente a definição das nossas prioridades. O atual cenário político brasileiro, tão polarizado, tenso e cheio de perigos, tem função parecida. Ainda gostaríamos, é claro, que todos pensassem igual a nós. No entanto, há duas coisas muito mais importantes para os cristãos neste momento: primeiro, que todos fiquem dentro dos limites da democracia; e, segundo, que todos deem exemplo para a sociedade na maneira de tratar os irmãos na fé que estão em outra posição política.

Dois obstáculos dificultam a consecução, mesmo desses desejos extremamente modestos: o ódio e as fake news (notícias falsas). Eles se reforçam mutuamente: o ódio cria as fake news e incentiva a sua propagação; e, por sua vez, as fake news alimentam o ódio.

A “ética do ódio”

“Tenho ódio pelo Lula.” A frase, ouvida por um de nós recentemente e dita com bastante ênfase, nos impactou. Não pelo fato em si; sabemos que há pessoas que não apenas discordam politicamente de Lula, e não apenas lamentam profundamente várias de suas ações políticas, mas que também o odeiam verdadeiramente. O que nos chocou mais foi ouvir essas palavras de quem as pronunciou. Uma cristã sincera e engajada, de larga trajetória eclesiástica. 

Daria outro artigo especular a respeito das raízes desse ódio. Para além de tal explicação, o que mais nos intrigou foi a frase seguinte da mesma pessoa, mais ou menos assim: “Quero que meu ódio sirva como base de uma nova política”. Outra pessoa, ouvindo esse comentário, o caracterizou apropriadamente como um exemplo da “ética do ódio”. A ética do ódio é a ideia do ódio como bom e justificável pelos frutos que germina; neste caso, uma nova política boa. 

A ideia do ódio útil e frutífero não é nova, claro; basta nos lembrarmos da ética de muitos revolucionários do passado! É o ressentimento como base para a ação. Por mais que a “luta de classes” pudesse ser teoricamente separada do “ódio de classe”, incitar este foi frequentemente o caminho mais rápido para implementar aquela. Ironicamente, os odiadores políticos de hoje provavelmente abominam a “luta de classes” e toda a ideia de uma política revolucionária baseada no ódio que supostamente resultará numa idílica sociedade sem classes. Mas não há por que acreditar que essa nova ética do ódio dará melhores frutos políticos.

As clássicas críticas cristãs (católicas e evangélicas) ao ódio político se aplicam aqui, independentemente de situarmos (ou não) o ódio a Lula no preconceito de classe. Ódio e adoração são dois lados da mesma moeda; aqueles que adoram Lula e aqueles que o odeiam estão envolvidos no mesmo processo desastroso que poderá levar o país a um conflito irremediável. 

Por outro lado, se há, de fato, elementos de preconceito de classe no ódio a Lula, lembremos que a classe social é uma das três discriminações mencionadas pelo apóstolo Paulo em Gálatas 3.28 (junto com a discriminação étnica e a de gênero), as quais “em Cristo” não devem existir. Em outras palavras, Paulo diz que “lá fora” essas discriminações são vigentes, mas não “aqui dentro”. Mas qual é a relação entre o “aqui dentro” e o “lá fora”? Será que a não discriminação é exigida do cristão apenas “aqui dentro” da comunidade cristã, mas que “lá fora” posso continuar discriminando? Essa possibilidade é eliminada pela parábola do bom samaritano, que ensina que é proibido reconstruir as fronteiras. O programa de Jesus é “o próximo sem fronteiras”! Portanto, os princípios que devem reger o comportamento do cristão “aqui dentro” também se aplicam ao comportamento cristão “lá fora”. O ódio alimentado pelo preconceito de classe é anticristão, seja quem for o seu alvo.

As fake news

Assim como o ódio, as notícias falsas não são novas; quem tem idade para se lembrar da Guerra Fria sabe bem disso. Mas o problema aumentou muito com o advento da internet, e sobretudo com as redes sociais. É fundamental agora verificarmos as fontes das notícias que lemos, e termos critérios adequados de avaliação.

Um exemplo da questão de critérios: em uma aula logo após os ataques terroristas de 11 de setembro, um de nós ouviu de alguns alunos que a notícia de que palestinos na Faixa de Gaza haviam comemorado o ataque era falsa; a CNN teria reciclado imagens antigas de palestinos comemorando a invasão do Kuwait por Saddam Hussein dez anos antes, dizendo que estavam celebrando os ataques recém-ocorridos nos Estados Unidos. Comecei minha resposta aos alunos da seguinte forma: tudo bem vocês quererem ser antiamericanos, mas pelo menos sejam antiamericanos inteligentes! Diante da incompreensão deles, expliquei: não ponho a mão no fogo pela lisura dos dirigentes da CNN, mas não é sociologicamente sensato acreditar que tenham feito uma manobra dessas, tão fácil de ser desmascarada pelas suas concorrentes, o que seria desastroso para a sua credibilidade. O cálculo custo-benefício de tal manobra não justificaria correr esse risco; afinal, a CNN não está na posição de um Pravda na União Soviética, capaz de impedir que seu leitores tenham acesso a outras fontes de informação. Dito e feito: logo se mostrou que a notícia de que a CNN havia reciclado imagens antigas não passava de fake news.

Embora esse exemplo seja de antes das redes sociais, hoje os mesmos critérios se aplicam mais ainda. Assim, quando saiu a notícia de que o “governo esquerdista” de Evo Morales, na Bolívia, teria “criminalizado a evangelização”, o que fizemos para averiguar? Apenas uns dois minutos de busca bastaram para mostrar que a suposta notícia estava restrita a certos sites, sobretudo evangélicos. Infelizmente, boa parte dos sites evangélicos não são muito confiáveis. Muitos apenas repassam reportagens, sem critérios próprios de avaliação; têm uma mentalidade propícia a acreditar em qualquer história de perseguição a evangélicos; e não possuem o conhecimento necessário para avaliar a plausibilidade das supostas notícias. 

No exemplo sobre a Bolívia, alguém inventou a fake news, sendo portanto culpado de má-fé. E muitos outros a repassaram como verdadeira, sendo “culpados” apenas de ingenuidade. Em outro caso recente, um conhecido líder evangélico publicou um vídeo que denunciava o Hamas por ter supostamente falsificado mortes em Gaza. Quando alguém mostrou que o vídeo era velho e portanto fake news, foi bloqueado e teve seu comentário apagado. 

Diante de fake news como essa, o leitor deve fazer algumas perguntas básicas. Primeiro, é sociologicamente plausível? (Não, porque, embora os governos de Israel e dos Estados Unidos culpassem o Hamas pelas mortes, não alegavam que sequer elas tivessem acontecido. Ou seja, os mais interessados em denunciar uma fraude dessas não o estavam fazendo.) Em segundo lugar, quem está veiculando essa notícia, e qual o grau de confiabilidade desses órgãos? 

Notícias veiculadas por órgãos especializados e sobretudo por órgãos que há muitas décadas vêm construindo uma reputação têm probabilidade muito maior de serem notícias genuínas. E quanto aos órgãos e indivíduos cristãos que ingenuamente veiculam notícias que se revelam falsas: errar é humano; admita o engano e publique a retratação; não se aprofunde no erro, atacando ou “apagando” quem o revela, mesmo que isso não favoreça a sua opção ideológica. Seja inteligente e ético, não inescrupuloso. Resta ainda o caso de cristãos que propositadamente inventam ou veiculam fake news… Na interpretação mais caridosa possível, estes não sabem o mal que fazem à credibilidade do evangelho.

Largar a espada, não lançar a primeira pedra e praticar a mansidão

Quem vive pela espada, morre pela espada, diz o evangelho (Mt 26.52). Se viver do ódio, perecerá consumido pelo ódio. Se viver propagando fake news, descobrirá que o deus em quem acreditou não passa de fake news. 

Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra, diz o evangelho (Jo 8.7). Com essas palavras, Jesus evita a escalada de ódio numa situação de extrema tensão e perigo (o pedido para apedrejar a mulher adúltera). Será que os cristãos hoje, no Brasil, conseguem contribuir para evitar a escalada de ódio e violência… ou vão colocar ainda mais lenha na fogueira?

Bem-aventurado o manso, diz o evangelho (Mt 5.5). O manso é o contrário do odiador e do propagador de fake news, pois o manso renuncia à retaliação e imita um Pai cujo sol nasce igualmente para bons e maus. Claro, essa ética de afirmar a dignidade de todas as pessoas sem exceção foi chamada por Nietzsche de “moral do escravo”. Hoje, alguns cristãos, desprezando a mansidão, parecem mais seguidores de Nietzsche do que de Jesus. Não sejamos como eles! Repudiemos a ética do ódio e as fake news. Não vamos deslegitimar e excomungar o irmão que diverge politicamente de nós, porque, senão, perdemos a nossa especificidade como cristãos e nos tornamos meros reféns das polêmicas políticas que estraçalham a sociedade.

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

com a colaboração de

• Raphael Freston é mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo.

* Texto originalmente publicado na edição 372 da revista Ultimato.

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2 Comentários

  1. Roberto Rocha disse:

    Ódio é uma coisa que jamais poderá habitar em nossos corações! Apesar do Lula ser um sujeito cínico,ele também faz parte do plano da salvação,afinal Deus não quer que ninguém se perca.

  2. Eliezer disse:

    Muito bom, pastor.

    Particularmente, parto da seguinte perspectiva:
    “A pessoa que tem domínio de si jamais se ofenderá. Eu só posso me ofender se eu não me conhecer. Alguém me insulta dizendo algo sobre uma questão pessoal, e só há duas hipóteses: a pessoa está dizendo a verdade ou ela está mentindo”.
    L. Karnal numa aula sobre “Hamlet”.
    Entretanto, em nenhum dos dois casos, há ofensa.

    Por quê?
    Acredito que Karnal fez algum tipo de referência aqueles casos PONTUAIS e isolados, esporádicos, como algo do tipo –
    1. Se alguém é homossexual, e assim é chamado, não deveria se ofender, afinal de contas essa tal pessoa é mesmo.
    2. O outro é evangélico, e alguém o chama de “irmão”, ele não deve se ofender mesmo que o outro tenha uma fé TOTALMENTE diferente da dele.
    3. Se alguém NÃO é homossexual, e assim é chamado, não deveria se ofender, afinal de contas essa tal pessoa NÃO é.
    4. O outro é evangélico, e alguém NÃO o chama de “irmão”, ele não deve se ofender independente do outro ter a mesma crença ou uma TOTALMENTE diferente da dele, afinal não podemos forçar a fé do outro…

    Todavia, se alguém INSISTE de forma repetida – pública ou privadamente – DIZER ALGO sobre outrem, com o intuito de injuriar (exp.: uma das partes diz algo desonroso e prejudicial DIRETAMENTE para a outra parte, como chamar de ladrão), ou com o intuito de difamar (exp.: desonrar alguém espalhando informações inverídicas, NÃO DIRETAMENTE) ou com o intuito de caluniar (exp.: acusar alguém publicamente de um crime), então acredito que não é mais algo isolado e sim uma injusta afronta pessoal.
    Mas, e o que se fala, se for verdadeiro, como proceder? Estou certo de que toda pessoa emocionalmente inteligente deveria pensar muito e com calma, sobre aquilo que ouviu, pois, talvez possa aprender muito sobre si mesma. É como se um ladrão de bancos fosse preso e se irritasse com o repórter que o chamou de ladrão de banco, e casos similares…