Reflexões Daladier Lima

Alta conectividade, baixa interatividade

Alta conectividade não significa interatividade, pelo contrário as pessoas andam cada vez mais distantes umas das outras. Que possamos refletir sobre isso.

Alta conectividade, baixa interatividade

Por Erlo Saul Aurich

É fato! Percorra um espaço público, uma praça, transite uma rua. Ainda, restaurantes, salas e quartos em casa. Ali estão, onipresentes, superpotentes, aparelhos, aplicativos sem fim, mundos nas palmas das mãos. Sim, tudo a um toque. Seres humanos, homens e mulheres, crianças e jovens e mesmo bebês com seus celulares e tablets grudados em seus carrinhos e bebês-conforto. Conexões sem relações. Falo de relações verdadeiras, humanas, no olho, de pele, mãos dadas, colo. Aquilo que de fato aquece corações, aproxima mundos e significa a vida.

Hiperconectividade, paradoxalmente, gerando distantes relações! Como enxergar nosso próximo, quando cada vez mais próximo estão de nossos olhos imagens e movimentos arrebatadores de nossos brinquedos eletrônicos? Fomos cooptados da realidade de cores, cheiros e sabores naturais e mergulhados em um mundo de brilho fascinante e interações líquidas, superficiais.

Sejamos honestos: os smartphones e o universo de aplicativos e acessos roubaram-nos muito da simplicidade, mistério e afetividade fluida entre homens e mulheres nas relações de descoberta e sequência de encontros e tempos de enamoramento, amizade e relações conjugais e familiares significativos. O volume de possibilidades cresceu. Ao mesmo tempo, a profundidade, o cultivo, a permanência perderam espaço. O descartável e a obsolescência de coisas transferiram-se para as relações e as distâncias aumentaram. A comunicação cada vez mais passou a ser indireta. Até mesmo dentro das casas. Ou lado a lado, nos leitos.

Como viver e agir/reagir em um mundo de hiperconexão e baixíssima interatividade? Sugiro movimentos sinalizados pelo Mestre dos mestres quando indagado de quem seria nosso próximo nas oportunidades da vida. Se amar a Deus com todo ser (coração, razão e força) e ao próximo como a nós mesmos traz a síntese das relações para vivermos na perspectiva da eternidade e conectividade de relevância, como identificar nosso próximo numa relação que vá além de meros “likes” e curtas frases e símbolos de relações virtuais?

O personagem principal de uma das parábolas mais conhecidas de Jesus, creio, nos aponta caminhos. Falo do Bom Samaritano. Quando provocado pelo mestre da lei a despeito da vida eterna e consequente conquista da mesma na relação com Deus e o próximo, o Mestre conta a estória. Um assalto, um homem ferido deixado pelo caminho, três homens cruzando a cena e suas reações. Dois deles, profissionais da religião veem a vítima e passam de largo. Suas obrigações ou motivações eram outras. Um deles, o Samaritano, o inimigo étnico vê, toca e envolve-se. Vejamos possibilidades a partir destas ações de percepção, interesse e solidariedade efetiva e transportemos para nossa realidade.

Visão – Os dois religiosos da parábola enxergaram, mas não viram. Podemos perceber muito ao nosso redor e hoje se “ouve muito com os olhos”! Mas o quanto? Nossa seletividade trai possibilidades que estão gritando diante de nós. Uma esposa que sofre a ausência emocional de seu marido que segue resolvendo o mundo em seu silêncio, acomodação e impotência. O marido que vê sua esposa correndo com os filhos, casa, trabalho e não lhe oferece tempo. Observadores cegos de movimentos rotineiros sem fim, sem sentido, estranhos no ninho. Filhos e irmãos querendo sempre mais, distraídos, mimados, sem limites apaziguados por pais dando o que querem, distanciando-se, desinteressando-se uns dos outros, cada um em seu mundo, virando-se para suas telas, evitando olhares.

O Samaritano enxergou e viu. Alguém caído. Ferido, vitimizado. E movimentou-se na direção.

Temos enxergado como ele? O quanto temos visto além das aparências? Importamo-nos?

Toque – Além de ver e enxergar, o Samaritano importa-se e movimenta-se na direção do homem roubado. Abaixa-se, chega perto, toca-o. Esteriliza a pele, limpa as feridas, o coloca sobre o seu animal e o leva até um abrigo para recuperação. O que poderia ser feito ele fez para salvar aquele homem jogado no caminho. E o que está em nossas mãos, nas oportunidades de cada proximidade humana? Olhos, mãos e pés vão ao encontro? Mais do que o corpo, nossos afetos ainda são tocados pela dor, solidão, abandono de quem está mais próximo? Ter compaixão dos meninos perdidos em cavernas ou famintos na Somália parece mais simples. Compadecer-se da esposa, filho, familiar, vizinho mais próximo num pequeno gesto de escuta, empatia e abraço nos desafia mais.

Envolvimento – Por fim, o preço do importar-se: tempo. Nenhuma relação se torna significativa se não houver horas e dias de comprometimento. O Samaritano não só fez o básico, que talvez seria, enfaixar o vitimado. Tirou de seu tempo, viagem, e trabalho para levá-lo a um abrigo. E mais, voltaria e investiria mais recursos para completar sua plena recuperação. Não ficou a distância. Ou melhor, ficou a uma curta distância, importando-se até o fim! “Voltarei” disse ele!

E conosco, quais movimentos fazemos nas relações com os mais próximos? Quanto tempo temos investido em relações de qualidade? Quantas distrações nos permitimos desperdiçando oportunidades de um convívio que tornaria o tempo eterno naquela fração de afeto compartilhado?

Uma antiga estória de presentes verdades!

Em tempos de hiperconectividade onde distâncias são vencidas e fascinantes oportunidades de aprendizagem e conhecimento são geradas, não percamos de vista a beleza e riqueza que se escondem atrás de nossas pequenas telas. Gente de carne e osso, feita à imagem e semelhança do Deus criador, pedindo um toque, uma presença, um valor. Está ao alcance das mãos! Levantes seus olhos, deslize seus dedos em novas direções e retorne para o mundo da conexão real. Primeiro ao alto. Depois diante de você em cada próximo mais próximo! Sinta o abraço do Pai! Sinta o calor do humano!

Deus o abençoe ricamente!

• Erlo Saul Aurich é pastor da Aliança Bíblica de Gramado e especialista em terapia de famílias. Casado com Juliana Koehler, é pai de Priscila e Lucca.

Pescado em Ultimato!

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