Assembleia de Deus na quarentena: as contas não batem!

As Assembleias de Deus alardeiam ser a maior denominação evangélica do Brasil. Mas por que a audiência na quarentena não reflete essa realidade!?

Acabei de circular pelos canais e páginas oficiais de várias Assembleias de Deus no Brasil. Comecei pela Região Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sul, Sudeste e por aí vai. Visitei também alguns canais de ministérios da Assembleia de Deus que não apenas as convenções centrais de cada Estado, principalmente as cidades mais importantes. E não esqueci dos ministérios não ligados à CGADB, ou seja, o mais amplo espectro, tanto quanto foi possível encontrar pelas buscas das redes sociais. E as contas não batem.

Em 2011 se especulava que nossa denominação teria algo em torno de 22,5 milhões de pessoas. E projetava-se para 2020, que até metade da população seria evangélica em nosso País. Nessa área, porém, o que não falta é alarde. De um modo ou de outro as coisas complicam quando analisadas à luz da quarentena que atravessamos.

O ideal seria uma pesquisa mais apurada, mas há ao menos quatro fatores que atrapalham uma melhor análise:

  1. A ausência de dados confiáveis dentro das administrações eclesiásticas no que refere aos próprios membros. Cadastros desatualizados, incompletos, com pouca qualidade dos dados são a regra, não a exceção;
  2. A intensa mobilidade dos membros entre os diversos ministérios. Ora se está numa AD ligada à CGADB, ora noutra ligada à Madureira, ora noutro novo ministério sem ligação nacional, etc;
  3. Como o número de membros é um fantoche para mostrar musculatura para oponentes ou se pavonear internamente, não há interesse num número mais realista;
  4. Não estamos falando da Assembleia de Deus como uma entidade una, mas de uma denominação multifacetada e com uma miríade de ministérios diferentes entre si!

Ocorre que veio o COVID-19 e com ele a quarentena, o confinamento, ou o nome que se queira dar, que obrigou a Assembleia de Deus a dar uma guinada. As igrejas estão fechadas, sem previsão de abertura. E estão obrigadas a fazer lives e procurar alternativas para chegar ao membro. A saída mais comum para as transmissões é ter um canal no Youtube ou fazê-lo a partir do Facebook. Aí os problemas começam.

Sabemos que há internet por toda parte no Brasil. Até fevereiro/2020 existiam 226,6 milhões de celulares em atividade no Brasil, uma densidade de 107,12 cel/100 hab, cerca de metade são pré-pagos (50,82%)[2]. Temos uma excelente capilaridade de internet banda larga, ainda que de má qualidade. Portanto, não há problema em se conectar. Muitas cidades tem wi-fi gratuito e muitas operadoras compartilham o excesso de banda disponível para levar internet a todos ao alcance da rede. Vizinhos compartilham senhas de conexões, etc.

Donde concluímos que o problema não é falta de internet. Então, por que os canais não alcançam nem metade dos membros? Num levantamento superficial que fizemos, estimo que os inscritos no Youtube chegam a 20% dos membros alegados por cada ministério[3]. Constatação semelhante se dá com os seguidores do Facebook, sendo que, neste caso o percentual gira em torno da metade. Dadas as circunstâncias que atravessamos é muito pouco. Colocando de outra maneira: apenas dois em cada dez membros estão inscritos ou são seguidores dos canais!

Se apenas a metade dos membros tivesse acesso à internet, ainda assim não justificaria o número irrisório de inscritos e seguidores dos portais eclesiásticos!

Bom, se não temos inscritos e/ou seguidores proporcionais à quantidade alegada de membros, que tal a audiência das lives? Melhora um pouco. Em números redondos crescem em torno de 5%. Ou seja, a proporção seria em torno de 25% dos alegados membros que assistem ao Youtube e 15% às lives do Facebook. O levantamento diz respeito aos últimos 30 dias.

Até se poderia alegar que as pessoas podem assistir sem se inscrever, tanto no Youtube, quanto no Facebook. Isso ocorre porque muitas publicações de uma determinada página ou canal são divulgadas na timelime de amigos em comum. Ou seja, se eu não sigo determinada página, mas meu amigo segue, no instante em que a rede social monta a timeline dele inclui o evento para que eu também veja. Mas sabemos que não funciona assim.

Com uma boa concessão teríamos um número flutuante estimado de mais 5% que não sendo inscrito/seguidor se interessa por assistir ao evento. Mas a própria quantidade de comentários e curtidas depõe contra essa possibilidade. Em tese, eu poderia ter uma boa live, de uma igreja que não sigo, mas ao assistir percebo um conteúdo tão bom que curto, compartilho ou comento. Esses números também são ínfimos se comparados à quantidade estimada de membros. Sem contar que se incluída esta possibilidade cai ainda mais o número de membros que efetivamente assiste o canal! E nem levamos em conta que canais e páginas são assistidas por pessoas de todo o mundo!

Não sabemos o que acontece exatamente. Seria o formato? O conteúdo? A profusão de lives? A concorrência pela qualidade? Ou as igrejas não estão conseguindo repassar sua mensagem aos ouvintes? A única certeza que há é: os números de membros x quantidade de audiência/seguidores/inscritos nos canais e páginas não batem.

E isso nos leva a outras questões mais complexas. Mas deixaremos para outro post. Obrigado por sua leitura!

Leia também: Pastores à deriva na quarentena!

PS: Se você mesmo quer avaliar a audiência de qualquer canal no Youtube há várias ferramentas disponíveis na internet. A que mais uso é a http://www.socialblade.com. Seguem as instruções!

[1] https://noticias.gospelmais.com.br/assembleia-deus-brasil-maior-igreja-pentecostal-mundo-21458.html

[2] https://www.teleco.com.br/ncel.asp

[3] Os números foram levantados ou por pastores amigos ou por reportagens internas, de centenários, etc

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