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Breves linhas sobre o apego ao poder…


Nascemos sem poder. Governados pelas mãos maravilhosas de nossas mães, tateamos no ventre escuro da ingerência. Dependemos. Nossas exigências, porém, são grandes, só não se manifestam de maneira explícita  Há mães que entram em parafuso, não suportam o peso da gestação. Assim, nascemos. Olhamos o mundo construindo pequenos triunfos sobre o ser. Impotentes, carecemos do afeto, cuidado e carinho materno. Nossas mãos tateiam o infinito, agarrando gravetos imaginários. Não sabemos o que seremos, pouco podemos por conta própria. Aguardamos. Num estalar de dedos estamos andando e falando. Dominando códigos complexos de manifestação da vontade.

Meses depois começamos a fazer exigências. Queremos iogurte ao invés de fruta. Chiclete ao invés de jantar. Escolhemos hora para sentar à mesa, amigos e preferências sutis. Fazemos birra quando não queremos ir à escola. Crescemos. As competições crescem conosco. Amor, dinheiro, emprego, educação, segurança, prioridades, incertezas. Vamos aprendendo a decidir. Com as decisões chegamos na fase do empoderamento.

Coisas que pareciam meras aptidões, para muitos de nós se tornam manias. De grandeza, de superioridade, de superlativos. Conta-se que certo amigo encontrou outro e iniciou uma conversa. Comprei uma casa nova. Casei. Estou ganhando bem. Fui promovido. Estou com planos de viajar, conhecer o mundo. Etc. Meia hora depois ele se dirige ao interlocutor: Vamos falar de você? O que achou da minha moto!? O rapaz tinha ingerido grandes quantidades de narcisismo.

Há projetos mais sutis de poder. Que tal a história do irmão, que estando num determinado culto, deixava que todos glorificassem, falassem em línguas, exaltassem a Deus. Depois que todos calavam, ele começava a dar gritos altos de glórias, aleluias e línguas? Aquele coração tão jovem não se permitia se perder na multidão. Nada de falar com os demais, princípio da comunidade adoradora, ele queria destacar-se. Os exemplos são muitos. Eu sou jovem, tenho apenas 43 anos, mas já vi muitos filmes desses na vida real. Como aquele do pastor que queria tomar conta de uma congregação, somente para que todo ano fizessem uma festa de aniversário para ele?

O poder é um caminho perigoso. É como uma droga qualquer. Você se torna dependente. Se não for afagado, se ninguém lhe elogiar, se não for cogitado para determinado cargo ou não se perpetuar nele, começa a adoecer. O contraditório da Igreja é que toda honra, glória e poder pertencem a Deus. Somos fracos, finitos e falhos, somente o Senhor é poderoso. Mas é uma lição que não decoramos nas aulas de teologia. Quantos obreiros Brasil afora, somente pra não se estender muito, estão sendo hostilizados pelo simples fato se serem mais capazes intelectualmente do que seus superiores? Enquanto outros se engalfinham somente para descobrir quem manda mais? Sim, sim, é lamentável que seja assim, mas é!

Curiosamente um caso estranho à igreja vem ilustrar cabalmente este post: a eleição de Renan Calheiros para a presidência do Senado. Ele não precisa do cargo, porque é influente e temido. Ele não precisa de prestígio, porque todos beijam sua mão. Não precisa do dinheiro, porque é muito rico. Mas lhe causa certa estranheza não ser o centro, ter o comando, o poder nas mãos. Sarney, o que sai por pura deferência, tinha a mesma doença. Só mudam os atores. O apego é o mesmo. Eles não querem sequer fazer nada melhor ou diferente. O que interessa é o trono.

Nullum similitudinem non est dato.

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