Breves notas sobre divisão de igrejas

Em breves notas discorro sobre a divisão de ministérios e igrejas. Raciocine comigo, comente, divirja, compartilhe!

Acabo de receber novamente de um amigo um vídeo de determinado presidente de uma AD, falando no que parece um culto público, visto que gravado, sobre a divisão de igrejas de seu ministério. A argumentação é conveniente e casuísta e pode se referir a alguns rachas recentes por lá. Resolvi fazer algumas anotações sobre o assunto:
  1. Quem se divide NÃO violenta virgindade de igreja nenhuma, como pensa o nobre pastor. As ovelhas são livres para ir e vir, aliás, um direito constitucional é o de vínculo associativo, que poderá ser desfeito a qualquer momento. A liberdade de associação é garantida no inciso XVII, art. 5º da Constituição Federal, que determina que somos livres para criar ou participar e, por conseguinte, extinguir ou deixar de participar, das mais diversas associações, religiosas, inclusive;
  2. A se manter o torto raciocínio anterior teríamos que analisar a questão do nascimento da Assembleia de Deus em solo tupiniquim. Para essa análise rasa e oportunista fariam bem os seguintes ingredientes: A Igreja Batista em Belém estava acomodada e tranquila em seu ambiente eclesiástico. Até que dois jovens suecos vieram lhes falar da mensagem pentecostal e a alvoroçaram. Alguns irmãos foram batizados no Espírito Santo. O pastor daquela igreja não concordou com as novas doutrinas pregadas pelos suecos e junto a 19 irmãos foram excluídos da comunhão congregacional. Foi, então, que fundaram a Missão da Fé Apostólica, primeiro nome da Assembleia de Deus. Mas, notemos, foram irmãos batistas que, “violentando a virgindade da igreja” batista em Belém, dividiram-na e fundaram a AD!? Pau que dá em Chico, dá em Francisco!
  3. Pra jogar um pouco de lenha na fervura, esses pioneiros se estabeleceram por todo o Brasil, a partir de Belém, e arregimentaram membros de TODAS as outras denominações que já estavam por aqui. Só focando em Pernambuco, Adriano Nobre, o fundador do trabalho, em 1916, era presbiteriano[1]. Foi expulso de nossa igreja, em um episódio cheio de lacunas, justamente por continuar crendo nas premissas calvinistas. Sendo que alguns até já tentaram apagar sua participação na história assembleiana pernambucana. A questão é que não temos registros de quantos irmãos de outras denominações vieram para a nossa e foram (e ainda são e serão!) prazerosamente recebidos. Há também muitos dos nossos que foram pra lá;
  4. Outro detalhe importante (e nisso peço assistência dos leitores para conferir se é assim) é que onde quer que a AD funde trabalhos hoje em dia estará arrebanhando membros e obreiros de outras ADs. Por onde tenho andado aqui no Nordeste é assim. Abre-se um trabalho e os obreiros e membros insatisfeitos ou que tenham alguma afinidade com a liderança da nova igreja a ela se agregam. Atenção: não há um ministério assembleiano sequer que possa dizer que não pesca no aquário alheio! Pode não fazer aquele proselitismo direto, mas conta entre seus membros com pessoas advindas das mais diferentes igrejas ao redor. A prevalecer o raciocínio do estimado pastor a que me refiro, sua igreja sequer deveria receber membros de nenhuma outra. Mas recebe, prazerosamente!
  5. Voltemos aos primórdios assembleianos. Pra esquentar o raciocínio um pouco mais, vieram as divisões regionais. Nos primórdios da denominação, os pioneiros circulavam em todos os Estados e até pastorearam igrejas em cidades diferentes, sem essa questão de limites estaduais. A partir de 1930, o Nordeste reclamou o domínio tupiniquim da denominação e os pioneiros foram escanteados. Em 1933, Vingren retornaria triste e esquecido à Suécia. Os anos se passaram e cada Estado fez nascer uma ou mais Convenções que dominam determinada região. Praticamente todos os Estados da federação possui mais de uma convenção assembleiana filiada à CGADB, derivada de uma convenção anterios. São, para todos os efeitos práticos, divisões do tronco principal assembleiano em Belém, com seu modus operandi próprio. Tente, por exemplo, a CGADB influir num desses feudos pra ver o que acontece!? A situação é tal que usos e costumes são diferentes e até resoluções da Convenção Geral são desconsideradas, vide a que diz respeito ao divórcio! E só estamos falando de uma das Convenções Gerais (CGADB), porque temos diversas delas e até ministérios assembleianos que não respondem a ninguém!
  6. Mas, para reestabelecermos toda a extensão dos fatos, a própria Igreja Batista, da qual nasceu a AD brasileira, já era uma divisão quando chegou aqui. Em sua origem veio da Igreja Anglicana holandesa. O anglicanismo surgiu na Inglaterra e era um descontentamento com a Igreja Católica, portanto, uma divisão dela que se protestanizou. Por sua vez as igrejas protestantes, em sua maioria, se dividiram da Igreja Luterana alemã, que é, também, uma divisão da Igreja Católica! Então, estamos discutindo sobre quem se dividiu de quem mesmo!? Praticamente impossível reconstruir quem se dividiu primeiro de quem. Isso sem contar as imbricações, porque a Anglicana holandesa já não é exatamente aquela Anglicana inglesa ao tempo em que a Batista nasceu, a AD brasileira é uma divisão da Igreja Batista, mas sua teologia é predominantemente metodista e a gestão é católica. De forma que divisão por divisão é melhor enfiar a viola no saco com esse emaranhado todo!
  7. Outro problema básico é que muitos líderes são mitômanos. Para eles sua igreja é a mais santa, a melhor, a mais pura, julga-se guardião da melhor doutrina, etc. Pior: arrogam para si mesmos o direito de mito fundante[2], nada do que aconteceu com seu ministério independe dele. Logo, pelo simples fato de ter contrariado um enviado divino, ele acha que quem sai, automaticamente, é rebelde, desviado, desobediente, infiel, lobo, devorador, interesseiro. Isso pra citar os adjetivos mais palatáveis. O incrível é quando esse argumento permeia lideranças menores e chega à membresia, criando ares de animosidade com quem saiu. Uma manipulação grosseira e descabida, aí sim, da ingenuidade dos membros. Que desconhecendo os meandros que levaram à divisão passam a tomar partido, sendo massa de manobra de uma direção inescrupulosa!

Por que se divide tanto a AD?

Líderes como o estimado pastor deveriam se debruçar sobre as razões que levam à divisão. Por vezes, é uma postura organizacional fratricida, com rígida hierarquia verticalizada, não divide poder, trata com mão de ferro os subordinados, escanteia a seu bel prazer, destrata, faz as piores peripécias. Quando a divisão ocorre, aí a liderança se refestela no vitimismo (o caminho mais fácil e conveniente) e não assume culpa nenhuma!

Só pra exemplificar, imaginem, os senhores e senhoras, nestes tempos cibernéticos, que determinado presidente de AD num dos Estados brasileiros determinou que seu subordinado, em determinada área/região/filial, excluísse seu perfil pessoal nas redes sociais, sob a alegação de que ele estava mais famoso que o presidente e outras lideranças acima dele (recebendo mais likes, seguidores, etc). Inconcebível isso!

Outro exigiu uma meta financeira tão alta que inviabilizou a prestação de contas das ofertas. O obreiro atingido teve sua prebenda suspensa e se viu obrigado a abrir um ministério. Noutro caso o obreiro adoeceu e foi tirado da área/região/filial sem dó. Ao retornar foi informado que como estava sem congregação aguardasse uma vacância qualquer. Prestes a passar necessidades abriu um ministério e centenas de membros de sua antiga igreja aderiram à iniciativa. O que o pastor deveria fazer nesse caso? Ser humilde e aguentar a fome calado?

Há outras divisões ocasionadas porque a liderança não tolera bem obreiros jovens (ignorando que Daniel Berg e Gunnar Vingren eram jovens e SOLTEIROS!). Noutros casos é pura inveja espiritual, se é que pode existir isso. Já vi ou ouvi falar de divisões porque o obreiro era usado poderosamente para a cura de doentes, noutros casos porque pregava bem. Muitas vezes o presidente se julga insubstituível e não trata de fomentar boas lideranças. Morre ou adoece gravemente e a luta pela sucessão ocasiona divisões[3]. Noutros casos é o nepotismo que ocasiona o atrito.

Há até divisões por causa da política partidária. Por que cargas d´água uma eleição pra vereador, prefeito ou deputado deveria influir numa igreja? Não dá pra explicar, mas se não votar ou não apoiar o candidato “oficial” uma liderança menor corre o risco de cair no ostracismo. E muitas vezes o liderado cai quando não aceita ser ele mesmo o candidato oficial do seu ministério! Puxa vida, era uma visão do presidente, o enviado divino, lembra!?, e o subordinado ousou discordar!? Não pode!
Evidentemente, não podemos esquecer que muitas dessas divisões tem a ver com poder e dinheiro. Alguém se arvora como importante ou cresce o olho nas ofertas e decide não mais se subordinar à determinada liderança. Passa a agir por conta própria e acaba dividindo o ministério ou a congregação. Ainda assim poderíamos pensar: O pastor presidente (é ele quem detém a palavra final em 99% dos casos) não teve visão espiritual ao consagrar um obreiro inchado ou olhudo pra lhe passar a perna? Ou o que houve foi uma acomodação mal feita de poder e divisão de verbas pra dar espaço e prebenda a quem não deveria? Penso que já está na hora de pensar criticamente a respeito, sem vitimismo e com objetividade, assumindo a responsabilidade onde couber.
Caminhando para a conclusão…
Importante pontuar que em qualquer caso a liberdade dos irmãos, em geral, está acima de tudo. Somos livres pra escolher, ir, ficar ou retornar pra qualquer lugar. Livres até para nos decepcionar! Há lideranças que pensam de si mesmo serem donos do rebanho (1 Pedro 5:2), dominando as ovelhas a seu bel prazer. Engraçado que nesses dias estamos discutindo exatamente sobre isso no que tange à pandemia. E muitos desses líderes estão de pleno acordo quanto a liberdade dos cidadãos. Por que seus membros não seriam livres pra ir daqui pra ali?
Já vi divisões que cresceram e outras que não deram em nada. Cada caso é um caso. Profetizo que nas condições de gestão atuais da liderança assembleiana muitas outras virão. Já disse, mais de uma vez, que a tendência na AD é a fragmentação. Não digo isso com alegria, é mera constatação. Via de regra, porém, prevalece a máxima: “Quem segura o gado não é a cerca, mas o pasto!”. Quem viver, verá!
[1] Leia mais sobre Adriano Nobre aqui
[2] Leia sobre o mito fundante aqui
[3] É a síndrome de Alexandre. O grande rei grego faleceu aos 33 anos e seus generais lutaram entre si até que enfraqueceram o império

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