Reflexões Daladier Lima

Carta a uma noiva

O que te fizeram linda morena? Ou seria loura, parda ou índia? Bem, a cor não importa, acho mesmo que a todas abarcas. Lembras como estavas prometida a um noivo exigente? Ou ainda estás? Ele esperava que teu maior presente fosse tua pureza. Confiou aos homens tua guarida, esperando que nós zelássemos por ti. Agora como te sentes? Como enxergas tua história? Ele disse que voltaria logo. Teus amigos te fizeram cansada da espera?

Como te desfiguraram! Zombaram do teu pudor, menosprezaram tua ingenuidade, fizeram pouco caso do teu amor. Tu eras chamada pra fora, pra viver uma vida nova, diferente na essência e no conteúdo. Era teu destino ser imortal, usufruindo dessa propriedade intrínseca ao noivo. Tua história proclamava reverente que a glória era teu destino, ser servida à mesa, ter o respeito de Deus, cercada de uma beleza tal que o tempo não corrompe.

Não a glória dos homens, perigosa, sensitiva, superficial, melancólica, tendenciosa, temporária, prima-irmã do mal. Tu não precisavas de fama, nem do nome escrito por aí, como um outdoor ambulante, aparecendo aqui e ali. Ser proclamada na mídia, nem ser politicamente correta. Adequar-se a padrões humanos, ser sociável e bem aceita. Teu nome seria declarado diante dos anjos e do próprio Deus! Para quê glória maior?

Nada aconteceu de repente, foi surgindo devagar, um movimento dissimulado e comprometedor. Um jogo enganoso de palavras, a intenção era tornar-te conhecida. Mas acabaram te enjaulando em pressupostos dúbios, tão inverossímeis quanto as intenções dos protagonistas. Olhando a história podemos perceber traços marcantes de dúvida. Ora ias, ora vinhas. Como se as promessas de mudança de rumo te fascinasse. A realidade é que te desfiguravam. Vai ficando cada dia mais difícil te reconhecer nas últimas fotos e vídeos, onde cantas e danças atabalhoadamente, como se o teu penhor nada valesse. Como se a coreografia fosse mais importante que teu sentimento de transcendência.

A quem pertences hoje, já que cada um quer ser teu dono e até mesmo mudar teu nome? Aos interesseiros de plantão e seus interesses tão mutáveis como a areia do deserto, toadas pelo vento das novidades? Aos comerciantes e seu dinheiro, cujo valor é tão mutável quanto? Ou ao noivo, que distante e resoluto anseia que te resguardes? Sugiro que decidas, já que ninguém pode fazê-lo por ti. É, ninguém pode decidir um destino traçado, dirias. Mas, há alguma tendência a ser definida, se queres atingir o objetivo de chegar intacta ao fim.

Ah! Teu nome especial e único, traduzia em suas seis letras tudo para nós. A luta seria renhida, o caminho seria atroz, mas a vitória seria certeira, o noivo seguia veloz. E não permitiria que nem mesmo todo exército demoníaco te venceria. Nem suas portas te abraçaria. Não sei se confiavas neste voto. Digo isto porque aderiste a estratégias que prometiam fermento para tua trajetória de crescimento. Isto era desnecessário porque cada passo estava previsto. Bastava te concentrar no básico: entender o mundo ao redor, preservando-se das máculas.

Vejo que estás valorizando o acessório, em detrimento do fundamental. Infiltraram em tua mente a política partidária. A revolução era um caminho indispensável ao teu objetivo de permaneceres pura? Ou era uma desculpa para teu engajamento? Para mudar o mundo, tentaram te mudar? A mudança não deveria partir de ti? Lembro que eras sal e luz, portanto… Resulta agora que te usam em suas peças publicitárias, como se teu apoio a tais causas trouxesse credibilidade às propostas. Não era isso que o noivo queria. Também não era alienação, mas apenas santificação.

Chegar ao casamento sem manchas era possível, cada coisa tem seu tempo. Mas o marketing, na sua forma mais letal, te seduziu. Hoje há inúmeros apaixonados, e poucos que te amam. Apenas se aproveitam de ti, de tua aura, de tua estatura. Tem cuidado de ti mesma, e da promessa que recebeste. Guarda-a como um tesouro, o que realmente é. Ela é fiel para te resguardar até o dia em encontrarás teu noivo num altar jamais usado. Ou já não queres mais casar?

Abraços, Igreja!

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