Combate à AIDS: uma luta que o lobby gay ignora!

Começa a distribuição do “coquetel do dia seguinte” contra a aids. E se o resultado for o contrário do esperado?

Por Reinaldo Azevedo*

Não estou querendo mudar nada, não. Até porque seria inútil. Ademais, há áreas do debate imunes ao apelo da razão. Vamos lá. A partir desta quinta, o governo começa a distribuir a, vamos dizer, “pílula do dia seguinte” contra a Aids. Se a pessoa chegar a um serviço especializado e disser que manteve sexo de risco, terá direito a receber os remédios, que têm de começar a ser ministrados no máximo depois de 72 horas da suposta exposição ao vírus. O tratamento dura 28 dias. O nome oficial da terapia é “Profilaxia Pós-Exposição”.

Ok. Então tá. Prestem atenção a esta fala: “Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.

Seu autor é o médico e antropólogo Edward C. Green. Ele já foi diretor do Projeto de Investigação e Prevenção da Aids (APRP, na sigla em inglês), do Centro de Estudos Sobre População e Desenvolvimento de Harvard. Hoje, está no Departamento de População e Saúde Reprodutiva da Universidade Johns Hopkins.

Publiquei um post sobre ele no dia 17 de julho de 2012.

Green deixou muita gente irritada em 2010 quando, cientista que é, endossou uma afirmação do então papa Bento 16 sobre a Aids. Escrevi sobre o assunto à época.

Numa visita a Camarões, um dos países que sofrem com o flagelo da Aids na África, o papa afirmou que a distribuição maciça de camisinhas não era o melhor programa de combate à doença. Afirmou que o problema poderia até se agravar. A estupidez militante logo entendeu, ou fingiu entender, que Sua Santidade contestara a eficiência do preservativo para barrar a transmissão do vírus. Bento 16 não tratava desse assunto, mas de coisa mais ampla. Referia-se a políticas públicas de combate à expansão da doença.

Se elas não estiverem atreladas a uma mudança de comportamento, não haverá a redução desejada nos casos de contaminação. Apanhou de todo lado. De todo mundo. No Brasil, noticiou-se a coisa com ares de escândalo. Os valentes nem mesmo investigaram os números no país — a contaminação continua alta e EM ALTA em alguns grupos — e no mundo. Adiante.

Em entrevista, então, aos sites National Review Online e  Ilsussidiario.net, Green afirma que as evidências que existem mostram que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África. Na verdade, ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsussidiario, adotou claramente o ponto de vista do papa —  e, notem bem!, ele fala como cientista, como estudioso, não como religioso: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da Aids. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação’”.

Nem se trata de debater se a camisinha é, em si, eficaz ou não ou de estabelecer a sua porcentagem de segurança. Quando se diz que a Aids é uma doença associada a comportamentos de risco, não se está diante de uma questão de gosto, mas de uma questão de fato. O mau uso de uma tecnologia de redução de risco conduz a uma maior exposição ao… risco! Compreenderam, ou preciso desenhar?

Todas as propagandas feitas pelo Ministério da Saúde no Brasil estimulando o uso da camisinha, por exemplo, tratavam e tratam o sexo irresponsável — muitas vezes, com desconhecidos — como se fosse coisa corriqueira. Numa delas, um sujeito acordava assustado, no meio da noite, olhava um estranho que dormia a seu lado e só suspirava aliviado quando via o invólucro aberto de uma camisinha. Sei. Quem nem sequer se lembra com quem foi pra cama ou se usou ou não o preservativo escolheu a segurança ou o risco?

Pois é… Green afirma também que o chamado programa ABC — abstinência, fidelidade e, sim, camisinha (se necessário), que está em curso em Uganda — tem-se mostrado muito mais eficiente para diminuir a contaminação. E diz que o grande fator para a queda é a redução de parceiros sexuais. Que coisa, não?

NÃO É MESMO INCRÍVEL QUE SEXO MAIS RESPONSÁVEL CONTRIBUA PARA DIMINUIR OS CASOS DE CONTAMINAÇÃO? Pois é… Critico as campanhas de combate à Aids no Brasil desde o site  Primeira Leitura, como sabem. E, aqui, desde o primeiro dia. Há textos às pencas no arquivo. A petralhada que se pensa cheia de veneno e picardia erótica gritava: “Você quer impor seu padrão religioso ao país…”. Ou então: “Você não gosta de sexo…”. Pois é. Vai ver Harvard e, agora, a Johns Hopkins escolheram um idiota católico e sexofóbico para dirigir o programa…

Bento 16 apanhou que deu gosto. E apanhou pelo que não disse — e ele jamais disse que a camisinha facilita a contaminação de um indivíduo em particular — e pelo que disse: a Aids é, sim, uma doença associada ao comportamento de risco e, pois, às escolhas individuais. Sem que se mude esse comportamento (o que não quer dizer um gay deixar de ser gay, por exemplo), nada feito. Pois é… O mundo moderno não aceita que as pessoas possam ter escolhas. Como já escrevi aqui certa feita, transformaram a camisinha numa nova ética. E, como tal, ela é de uma escandalosa ineficiência.

O caso dos contraceptivos

O combate a doenças associadas a comportamento pode passar por lugares insuspeitados. Em novembro de 2011, o New York Times publicou uma reportagem sobre pesquisa divulgada na revista médica Lancet dando conta de que, em alguns países africanos, o número de infectadas pelo vírus da Aids era muito maior num grupo de mulheres que usavam um contraceptivo injetável do que no daquelas que não usavam. O levantamento foi feito com casais de Botsuana, África do Sul, Zâmbia, Quênia, Ruanda e Tanzânia. A proporção era de 6,61 por 100 contra 3,78 por 100; no caso dos maridos, de 2,61 por 100 contra 1,51 por 100.

As razões não estavam claras, diziam os cientistas. Especulava-se sobre a possibilidade de o hormônio injetável causar mudanças no sistema imunológico, na lubrificação vaginal etc. Cientistas, muitas vezes, não gostam de pensar hipóteses que vão além dos bichinhos, humores corporais, proteínas, essas coisas… A minha hipótese, bem aqui à distância, é que o tal hormônio injetável, aplicado a cada três meses, dava a muitas mulheres a garantia da não concepção, um fator a mais — e não é preciso ser muito bidu para descobrir por quê —, a estimular o sexo despreocupado. Isso deve ter induzido uma elevação do número de parceiros, com sexo desprotegido. O resultado se fez sentir na elevação brutal da contaminação.

Não se constatou aumento significativo num grupo que tomava comprimidos diários. Isso elimina a minha hipótese? Ao contrário: reforça. A mulher que se lembra de tomar diariamente um contraceptivo estabelece um compromisso maior com o controle da sua sexualidade do que aquela que toma uma injeção a cada três meses.

A Aids ainda não tem cura, mas o contágio, ah, esse tem, sim! O melhor remédio chama-se “comportamento”. Os médicos não falam isso porque têm medo de cair na rede de difamação dos grupos militantes. Mas fatos são fatos. Os militantes podem até se achar donos da causa, mas não são donos da verdade.

Encerro

Há um risco nada desprezível de a distribuição do “coquetel do dia seguinte” acabar estimulando o sexo irresponsável, já que “tudo tem jeito”. O ideal, dizem os especialistas, é começar a tomar o remédio duas horas depois. Duvido que alguém pule da cama de risco para um posto de distribuição dos remédios. O prazo é 72 horas… Por que não 73, 77, 81…?

O remédio mais eficaz contra a Aids é comportamental — e isso nada tem a ver com sexualidade de cada um. Enquanto a abordagem estiver errada, o resultado das medidas de combate ao mal continuará ou a ser insatisfatório ou contraproducente. O tempo dirá.

* Reinaldo Azevedo é colunista de VEJA

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