EBD Estudos Daladier Lima

Como a história de Daniel nos fala hoje?

De que maneira uma história tão antiga como a de Daniel toca o homem moderno? Nossos intelectuais evangélicos estão à altura de Daniel? Quais os males que afetam a intelectualidade evangélica? Qual o segredo de Daniel para vencer os embates da vida?

Introdução

A história do livro de Daniel é curta. Tem apenas 12 capítulos e 357 versículos e não cobre inteiramente sua biografia. Não sabemos, por exemplo, onde nasceu, de quem era filho ou com quantos anos estava ao ser exilado de Jerusalém para Babilônia. É considerado um dos profetas menores dentre outros usados por Deus durante a formação, apogeu e declínio do reino de Judá. O nome Daniel significa Deus é meu juiz.

Deduzimos que era filho da nobreza, pois foi deste grupo que Nabucodonozor selecionou jovens para servirem ao palácio. Eles deveriam ser instruídos na sabedoria caldeia, na língua e em seus costumes. No tempo em que Daniel chega no reino uma lenta transição estava em curso. É que a língua acadiana daria lugar ao aramaico. Mais fácil de ser memorizado, aparentado do hebraico e do árabe. Inclusive, uma parte do Antigo Testamento é escrita neste idioma: Esdras 4:8-6, 18; 7:12-26; Daniel 2:4-7, 28 e Jeremias 10: 11.

Babilônia era uma grande metrópole, ruínas dão conta que variados canais fluviais cortavam a cidade e permitiam o deslocamento de seus cidadãos. Tais canais derivavam do Eufrates e geravam riqueza e comércio na capital do Oriente Médio na época. Como é comum, o crescimento da cidade magnetizava o conhecimento e o poder. Se Babilônia existisse hoje seria uma grande cidade do mundo ao lado das européias e americanas. Suas bibliotecas são famosas por suas tabuinhas cuneiformes.

Etapas do exílio

Antes de falar nas circunstâncias que levaram Daniel à Babilônia, precisamos recordar como a nação israelita se dividiu em duas. Quando Salomão faleceu, assumiu o reino seu filho Roboão. Ele herdou pesados impostos, que oprimiam a população. O povo se reuniu e pediu ao rei que aliviasse a carga. Após ouvir anciãos e mauricinhos o rei decidiu pelo conselho destes últimos e acabou dividindo a nação. Dez tribos do norte de Israel se emanciparam e formaram um reino sob Jeroboão, cuja capital era Samaria, e duas tribos, no sul, ficaram com Roboão (I Reis 12), tendo como capital Jerusalém. Ambos os reinos, porém, eram idólatras e receberam dura repreensão do Senhor e ameaça de exílio (II Crônicas 36:15,16). Ela se cumpriu quando o reino do Norte, cuja capital era Samaria, foi levado à Assíria por Salmanezer, em 722 a.C.

O reino do Sul teve muitos reis piedosos, mas com o passar do tempo caiu no mesmo pecado. O exílio aconteceu em três etapas:

  1. Em 605 a.C. Nabucodonosor invadiu a Palestina, o rei Jeoiaquim, com apenas 36 anos, foi feito cativo, preso a ferros e conduzido à Babilônia, com oficiais da corte. Daniel e seus três amigos entre eles. Foram também levados alguns dos tesouros do templo (Daniel 1:1-7; II Crônicas 36:6-7);
  2. A segunda teve início um ano depois. A capital foi sitiada e o jovem rei Joaquim, filho de Jeoiaquim, com apenas 8 anos de idade, foi levado cativo (II Crônicas 36:10). O Templo foi totalmente saqueado e seus tesouros levados para Babilônia, bem como dez mil homens, entre o profeta Ezequiel. Zedequias, tio do rei Joaquim, foi nomeado por Nabucodonosor II como rei vassalo;
  3. Por conta de revoltas internas, em 586 a.C., a capital foi cercada e dezoito meses depois caiu, sendo totalmente destruída e queimada (II Crônicas 36:13). O rei Zedequias, com todos os seus súditos, exceto alguns dos mais pobres, foram deportados para Babilônia (2 Reis 25:1-12; Jeremias 52:29)

Assim, Daniel foi apanhado pela geopolítica ambiciosa de Nabucodonozor. O rei foi bondoso e fez algumas concessões aos novos súditos, como a permissão para adorar seus próprios deuses e residir em suas próprias casas. Babilônia crescia exponencialmente com as novas conquistas e era preciso bons cérebros para gerenciar a expansão. Nada melhor que escolher entre os da própria nobreza.

Daniel em Babilônia

Como tantas outras capitais, Babilônia era também a capital do pecado. Havia tentações e oportunidades. Porém, imersos naquele lodaçal as pessoas estavam expostas à mensagem bíblica, assim como hoje há oportunidades imensas em nossas cidades. Chegamos, portanto, às lições de sua trajetória para nós hoje em dia:

1.Daniel preservou sua identidade
Este é um assunto complicado porque, geralmente, confundimos identidade com cosmovisão. Daniel não era um radical, inábil e refratário a amizades. Pelo contrário, era sociável e atraía a atenção por suas qualidades intelectuais e espirituais. Não perdeu, por exemplo, a oportunidade de aprender a ciência dos caldeus, que consistia nos estudos mais avançados de sua época. O mesmo podemos dizer da língua e dos costumes. Tudo que era proveitoso Daniel absorvia!

A identidade de Daniel não consistia em sua placa denominacional. O judaísmo tinha tantas delas… Era a postura daquele jovem judeu que chamava a atenção dos que conviviam com ele. Era honesto, convicto, fiel a Deus e estudioso de sua palavra. Lembrando que naquele momento um simples livro consumia vários papiros ou pergaminhos, dificultando a leitura e a memorização. Não era tão fácil e acessível como hoje.

A identidade de Daniel não consistia em externalidades, mas no que estava em seu coração. Ninguém pressionou Daniel a ficar firme. Longe de sua Igreja, seu pastor, seus pais, ele poderia cair na gandaia, mas preferiu, unilateralmente, não se contaminar.

E não apenas ele, mas seus amigos tinham o mesmo gene espiritual. Vemos, por exemplo, a posição adotada no episódio da estátua de Dura: Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste (Daniel 3:17,18).

2.Daniel desenvolveu sua sabedoria, inteligência e conhecimento
Daniel era um homem extremamente sábio, a ponto dos escritores bíblicos utilizarem o profeta como parâmetro para o próprio Diabo, um querubim, apesar de caído (Ezequiel 28:3). Mas a sabedoria não é estanque. Ela cresce e se aprofunda com o passar dos anos.

O mesmo ocorre com a inteligência. Uma capacidade natural e humana. O cérebro, dizem os especialistas, se expande com o raciocínio. Suas sinapses se tornam mais rápidas quando pensamos sobre algo. E temos o conhecimento que é o acúmulo de informações ao longo dos anos.

Nestes três campos tanto Daniel quanto seus amigos se destacaram. Os próprios avaliadores babilônicos os acharam dez vezes mais inteligentes e sábios que todos os outros avaliados (Daniel 1:20).

Infelizmente, a produção intelectual de muitos jovens evangélicos brasileiros é pequena e inexpressiva, de pequena repercussão. Apesar da repulsa acadêmica aos pesquisadores teístas podemos fazer a diferença com pesquisas, artigos, posts e reflexões de elevado conteúdo científico. Especialmente, em termos de conhecimento bíblico. Estamos engatinhando se compararmos nossos jovens aos americanos, por exemplo, em campos como música, semântica, lingüística, arqueologia e história bíblica.

3.A sabedoria de Daniel não o fez orgulhoso
Do início ao fim do livro notamos um homem humilde. Jamais se ensoberbeceu, nunca quis sobrepujar nenhum dos seus amigos, nunca reivindicou nenhum trono, cargo ou posse. Até mesmo quando pudesse merecer, ao interpretar a escritura na parede, disse a Belsazar: “Os teus presentes fiquem contigo, dá os teus prêmios a outrem” (Daniel 5:17). Daniel alcançou todos os postos com sua sabedoria, jamais com perspicácia ou esperteza.

Infelizmente, as pessoas começam a estudar e se tornam inacessíveis, cheias de si ou donas do conhecimento. Daniel sequer se arvorou na interpretação para negar ao rei o conhecimento sobre o significado de seus sonhos, mas como porta voz de Deus denunciou o pecado e anunciou o futuro divino para a nação babilônica.

A humildade de Daniel consistia em reconhecer a soberania divina. Em dado instante de seu livro ele exclama: Mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios… (Daniel 2:28). Noutra ocasião mostrou-se submisso quando injustiçado. Foi lançado na cova dos leões e saiu ileso (Daniel 6).

Que homem!?A Bíblia diz que a soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda (Provérbios 16:18). Com humildade e mansidão podemos ganhar muitas pessoas num círculo acadêmico para Cristo.

4.A sabedoria de Daniel não o tornou menos espiritual
Já se tornou praxe. O jovem entra num curso teológico ou acadêmico de outra natureza e se ausenta da Igreja e dos trabalhos. Não quer mais orar, evangelizar, adorar entre os demais. É preciso mudar este estado de coisas.

Deveria ser justo o contrário. A consciência dos erros e dificuldades alheios deveria nos tornar mais cônscios de nossas responsabilidades. Conhecendo melhor a Palavra, por exemplo, deveríamos lê-las mais. Conhecendo melhor teologia, deveríamos nos empenhar para fazer o trabalho com mais qualidade e desvelo (Lucas 12:48).

Notemos a oração que Daniel fez pelo seu povo que é um clássico da literatura bíblica. Não conseguimos lembrar de algo semelhante feito por Isaías, Jeremias ou Ezequiel. A consciência e a confissão de pecado é a semente de cura espiritual para todos nós.

E Daniel ora. Ora sempre. Quando precisa que algo lhe seja revelado, quando quer perdão, quando quer ser livrado do seus algozes e foi orando que eles o encontraram (Daniel 6). Além disso, é um homem profundamente espiritual. Deus lhe deu o conhecimento de visões e sonhos e sua interpretação. Não apenas interpretava os sonhos alheios, quanto tinha seus próprios sonhos e visões!

5.A Daniel Deus permitiu uma visão panorâmica da História
Deus mostrou a Daniel que é o dono da História. Foi o combustível que permitiu sua firmeza por quatro reinados. Iniciou sua trajetória em Babilônia com Nabucodonozor, serviu e repreendeu Belssazar, esteve á disposição de Dario e assistiu a Ciro. Eles passaram e Daniel permaneceu.

Esta visão panorâmica permitiu a Daniel perceber que os reis e domínios são temporais. Passam e já não são lembrados. A areia do tempo recobre templos suntuosos, deuses falsos, ídolos das mãos humanas, engolfa o eco dos tronos. Nada se furta ao seu poder. Enquanto Deus permanece para sempre.

6.Daniel não fez da política um fim, mas um meio para glorificar a Deus
A política é a arte da convivência visando o bem mútuo. Cabe ao Estado usar a política para o progresso e bem estar de uma Nação. Podemos ter políticos evangélicos. Historicamente, há evangélicos políticos. A grande questão hoje é fazer a política longe do envolvimento da Igreja, da barganha, da troca de favores, das benesses.

Desde 1902, a Igreja Presbiteriana, tem membros na política. Leonel Brizola era da Igreja Metodista. Porém, até os anos 40 do século passado, não havia estratégia eclesiástica para os mandatos eletivos. Os políticos evangélicos eram eleitos a partir de seu capital financeiro, oriundo do sucesso empresarial ou herdado de suas famílias, convertido em capital político . É o caso de Antonio Torres Galvão que chegou a presidir um sindicato, foi juiz do Trabalho e deputado estadual, chegando à Presidência da Assembleia Legislativa em 1952. Com a morte do governador Agamenom Magalhães, o deputado evangélico foi alçado ao posto, sendo o único governador operário em toda história do Estado.

Até que as igrejas passam abertamente a defender as candidaturas amparadas por projetos eclesiásticos, que visavam num primeiro momento defender os interesses das denominações a que pertenciam. Os pentecostais demoraram um pouco mais a abraçar a idéia. Somente na metade dos anos 1960 foram eleitos os dois primeiros deputados pela Igreja O Brasil Para Cristo. Daí em diante tivemos uma verdadeira avalanche de candidatos evangélicos, alguns dos quais lograram êxito.

Infelizmente, a tal defesa da Igreja se tornou, na maioria das vezes, em defesa do próprio patrimônio material ou político. O comentarista da lição afirma: “De todas as áreas da vida do cidadão, a política tem sido uma em que muitos cristãos não têm sido bem sucedidos, por não se conduzirem de modo digno diante de Deus, diante da pátria, da consciência e de seus pares, como o fizeram Daniel e seus companheiros no reino babilônico. Na realidade, porém, a política é atividade necessária ao bom ordenamento e desenvolvimento da vida de uma nação, na qual a Igreja está inserida.”

Para piorar muitos políticos evangélicos não tem uma bandeira política definida. Se limitando à defesa da família, uma idéia genérica e metafórica. Praticamente não há propostas para gestão da coisa pública, transparência, diminuição de impostos e afins.

Parte do problema está na ausência de conscientização política por parte das igrejas. Isto gera cidadãos sem ética, que vendem seus votos, muitos dos quais no dia da eleição, que o trocam por benesses e que muitas vezes não sabe a distinção entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Não sabem cobrar seus direitos, não votam de maneira consciente e reflexiva. Uma membresia que não é sal, nem luz, ao votar, não pode esperar que os eleitos o sejam!

O mundo político precisa de representantes evangélicos. Mas eles não podem ser escolhidos porque trazem cantores, fazem concentrações evangelísticas, dão cargos a indicados, dão cestas básicas a necessitados. Devem apresentar propostas coletivas. Os governos de esquerda perpetuaram um modo de Governo para minorias, visando determinadas reparações históricas. Mas a política deve visar todos os cidadãos, indistintamente.

Outro engodo terrível é o mote “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (Salmos 33:12), tal assertiva se refere a Israel, pois a segunda parte do versículo assevera: “e o povo ao qual escolheu para sua herança”. O único povo que Deus escolheu para sua herança foi o judeu.

Conclusão

A evangelização é uma tarefa desafiadora, especialmente com públicos refinados. O testemunho nestes ambientes não pode ser feito de forma destrambelhada ou desorganizada. Devemos buscar os melhores meios, as melhores mentes e os melhores argumentos para captar a atenção de tais pessoas. Com ética, oração e demonstração do poder de Deus.

Paulo conseguiu reunir a sabedoria judaica, a perspectiva filosófica grega e a profunda espiritualidade cristã. Seus ensinamentos são profundos e contundentes. Mas o que fez realmente a diferença foi se entregar nas mãos de Deus para ser um verdadeiro e poderoso instrumento, de forma ética, exemplar e maravilhosa. Tanto para os de dentro, como para os de fora.

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