Lembrai-vos da mulher de Ló!

A advertência de Jesus soa atualíssima: Lembrai-vos da mulher de Ló! Os que vivem uma religiosidade de aparências não entrarão na pátria celestial. O julgamento se aproxima e será sem misericórdia.

Os fariseus o acossavam. Eram gente séria, comprometida com seu modo de pensar apesar do deslocamento das ideias. Podemos ser insistentes com nossos erros e cosmovisão. A qualquer tempo estavam a lhe fazer perguntas. A muitas respondia com evasivas, mas sabia discernir quando a dúvida era procedente. “Quando virá o reino de Deus?”. A lógica era razoável: Se Ele é o filho de Deus, deve saber algo a respeito.

Jesus aproveita para anunciar a todos que o ouvem as “contradições” do Reino. Não virá de forma aparente, será precedido do grande sofrimento do Messias, desencadeará catástrofes sobre Jerusalém, deve despertar a atenção de todos, etc. Os ouvintes assistem assustados ao desfile de advertências e meio como que encerrando, mas sem encerrar, o Mestre insere uma colocação sombria: “Lembrai-vos da mulher de Ló!”. Ora, ora, tantas mulheres de reputação no Velho Testamento e Jesus assinala justamente a mulher de Ló!?

Ló é um personagem enigmático, quase sempre citado de forma colateral. Sua biografia começa em Gênesis 11:27, quando se informa que era filho de Harã, terceiro filho de Terá, pai de Abrão. Esse era seu nome até ser mudado para Abraão. Terá tinha três filhos: Abrão, Naor e Harã. E viviam em Ur dos Caldeus, uma metrópole politeísta cerca de 120km a sudoeste da capital Babilônia, cujo reino tinha o mesmo nome.

Ló ficou orfão e passou a morar com Abrão. Junto com Terá se deslocaram centenas de quilômetros até Harã, na atual Síria. Onde este último faleceu. Tempos depois Deus ordenou que saísse de sua terra e parentela para um lugar diferente, onde seria pai de muitas nações. E Abrão obedeceu, levando consigo Ló, cuja obrigação de cuidar assumira com a morte de seu irmão. O resto é história.

Por volúpia Ló foi parar em Sodoma, que era uma cidade pervertida num vale fértil a ponto de Deus determinar sua destruição. Sua mulher, da qual não sabemos o nome, era certamente influente. O próprio Ló se tornou juiz entre os sodomitas e assim estava envolvido com aquela sociedade quando veio a ordem. Dois anjos, disfarçados de homens, se encarregam de salvar sua família e os arrancam à força da cidade. Não sem antes serem assediados pelos homens daquele lugar, que numa horda insana tentavam possuí-los.

A ordem era clara: “Escapa-te por tua vida, não olhes para trás, nem pares em toda a campina!”. Era madrugada quando eles fogem primeiro para um monte nas proximidades, depois para a pequena Zoar. Pouco antes do portão a mulher olha pra trás e é convertida, instantaneamente, numa estátua de sal. Mal Ló e suas duas filhas alcançam a cidade, chove fogo e enxofre e destrói Sodoma e Gomorra.

Do ponto de vista espiritual a mulher de Ló era uma agraciada. Certamente acompanhará Ló desde Ur, vira as grandes promessas de Deus na vida de Abrão, quem sabe participara daquele culto em que ele se erigiu o primeiro altar na terra da promessa (Gn 12:7), tivera o privilégio de ser admoestada por anjos, e até ser levada por eles, tendo em vista a salvação do juízo iminente. Não faltavam experiências espirituais para uma verdadeira conversão. Mas…

Ela optara por uma religião de fachada. Quem sabe para agradar seu marido e se conformar às tarefas familiares? Ela vivia em flerte com o mundo que a cercava. Nunca deixou que o culto, as experiências com Deus, transformassem seu coração. Reprovava os procedimentos diários pecaminosos de Sodoma, mas em seu íntimo os desejava.

Há algumas curtas lições nesta história:

  1. Uma religião aparente não transforma pessoas. Podemos até participar de cultos, reuniões, orgãos. Estas coisas trarão entrosamento, mas é preciso algo mais profundo e que uma mudança radical aconteça em nós;
  2. Se você amar o mundo pode até ser abraçado por anjos, mas estes não poderão salvá-lo. Estas experiências poderão marcar a sua memória, mas é preciso que se realizem no seu caráter, moldem a sua alma;
  3. O que deixarmos nascer no coração determina o que acontece com o restante do que somos. Vivermos dominados pelo pecado é fruto de uma opção pessoal;
  4. Um coração endurecido, por vezes, é fruto de privilégios religiosos, uma familiaridade estéril com as coisas sagradas. Vamos nos acostumando e ficando por ali, como um jarro bonito, que não tem nenhuma ligação viva com um determinado espaço, apenas ocupa um lugar;
  5. O coração de um salvo não pode estar nas coisas do mundo, embora vivamos no mundo. Podemos ter influência social, econômica e até política. Só não podemos esquecer que não somos cidadãos deste mundo e outra pátria nos aguarda (Fp 3:20; Hb 11:10). E, mais importante, devemos viver hoje em função da cidadania celestial;
  6. O arrebatamento revelará muitas mulheres de Ló. Aparentemente salvas, religiosas, cumpridoras de mandamentos e ordenanças, mas não transformadas. E esse padrão se aplica aos homens também!
  7. É preciso ir até o fim. A mulher de Ló estava a poucos passos de Zoar quando olhou para trás e se perdeu!

Que Deus tenha misericórdia de nós!

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