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Nem sal, nem luz: o caso da Igreja brasileira!

Uma igreja que não é sal nem luz pode se aventurar a tentar resolver os problemas do Brasil? Se não temos um aconselhamento eficiente para as famílias devemos esperar que leis no Congresso resolvam nossos problemas nesta área?

Nem sal, nem luz: o caso da Igreja brasileira!

Prezados 400 leitores, trago mais uma reflexão sobre o papel da Igreja na sociedade brasileira. Não é simples analisar o fenômeno. Temos alegados 25 a 40 milhões de evangélicos neste país continental. As estatísticas variam de acordo com quem faz a análise. Entretanto, há poucas pessoas que seriam capazes de ser identificadas como um seguidor exemplar de Cristo, tal como aconteceu com os primeiros discípulos.

Podia-se naquelas circunstâncias torcer o nariz para os cristãos e até acusá-los de coisas infundadas, mas ninguém se atrevia a acusá-los de pecado! Aliás, foi a ausência de ou mínima contradição entre os primeiros crentes que impactou tanta gente. Eram um grupo pequeno, sem posses, mas com um exemplo invejável. Diz um antigo provérbio que palavras ensinam, exemplos arrastam…

O caso da igreja brasileira

Hoje temos uma igreja grande, que, descontadas as exceções, não salga nem brilha. Quer ser protagonista no jogo político para tentar resolver seus problemas, mas não está atenta à natureza desse jogo. Ou finge não estar. A cada quatro anos deposita suas fichas nos futuros representantes, na verdade com pouca renovação são os mesmos. Mas é aí que as coisas começam a ficar complicadas.

Estou lendo Em Nome de Quem, de Andrea Dipp. Descontado o claro viés esquerdista da obra, temos uma bancada evangélica alérgica aos verdadeiros problemas que nos afligem. Pautas meramente moralistas, de perfil genérico e de impacto incerto a longo prazo, como a defesa da família. Pasmem os leitores, boa parte dos congressistas estão preocupados em criar datas comemorativas como o Dia do Evangélico, ou algo que o valha!

Por falar nisso, permita-me uma digressão. É que aqui em Abreu e Lima/PE ocorre algo interessante. Grupos de pressão evangélicos fizeram com que o prefeito da época criasse um tal Dia da Consciência Evangélica em 31/10, no qual é feriado municipal. Um aceno para a grande quantidade evangélicos da cidade. Então, no dia da Reforma Protestante haveria uma comemoração, na qual TODOS os evangélicos celebrariam a data em conjunto.

Aí começam os problemas: denominação que não comparece, outra que programa evento no mesmo dia em seu templo, outra que não libera orgãos, outra que não está nem aí, em muitas nem se fala no assunto, etc. A cidade é uma das mais evangélicas do Brasil, mas a comemoração não consegue reunir nem 5% dos crentes! Se eu fosse eleito prefeito revogava a lei que criou o evento! Ora, ou bem criamos um feriado e participamos dele efetivamente ou não criamos!

Voltemos…

A família precisa ser defendida? Sim, claro que a família deve ser defendida e com unhas e dentes. Mas, por que essa defesa não é feita na estrutura? Temos inúmeras igrejas sem um ministério ou algo que o valha para namorados e noivos. Eles chegam ao altar sem qualquer esclarecimento sobre a convivência familiar e vão aprendendo a se virar. E ainda há muitos pastores que pensam poder mudar o destino de um casal com 40 minutos de sermão no casamento! Não temos ministérios ou algo parecido para os divorciados, para os viúvos, para famílias com problemas. Depois queremos que o Congresso Nacional resolva os nossos problemas familiares!?

Não, não se trata de pegar na mãozinha, afinal as pessoas devem aprender algumas coisas por si sós. Mas é inevitável pensar que tantas igrejas preocupadas com as famílias não possuem um departamento de atendimento familiar, com corpo profissional de psicólogos e assistentes sociais, dia e horário fixo para atendimento! É só orar e está tudo resolvido? Paciência! Tempos atrás li uma reportagem na qual se criticava o espaço dado no treinamento de um cadete do Exército à disciplina ordem unida. Ele gastava mais tempo aprendendo a perfilar do que efetivamente combater. Precisamos de oficiais que saibam desfilar e fazer uma continência, mas também que tenham boa mira, que saibam pilotar um automóvel com rapidez e estejam treinados para agir em condições adversas.

Ah! Não é isso blogueiro, queremos defender a família dos ataques externos. Ok. Que política de longo prazo foi implementada para disseminar os valores da família na sociedade? Temos uma imensa facilidade (ou nem tanto) no endomarketing, mas nestes tempos de realidade cibernética, que vídeo do Youtube, por exemplo, foi impulsionado por uma igreja defendendo os valores judaico-cristãos? Gastamos tanto dinheiro com uma mídia que ninguém vê, por que não investir nisso? Por que não investir no impulsionamento de textos bem elaborados sobre estrutura familiar, com boa fluência e profundidade técnica para alcançar todos os públicos, qualidade gráfica atrativa, uma seção tira dúvidas, etc? E impulsionamento pago para fazer o conteúdo chegar a toda parte?

Quer ver uma coisa simples? Quanto é gasto por sua igreja no treinamento das professoras de EBD, que estarão ministrando a crianças, as mentes mais férteis, os valores do reino de Deus? Quanto a igreja investe em audiovisual para essa faixa etária? Quando a sua EBD saiu das quatro paredes para influenciar a comunidade do entorno de sua congregação? Normalmente, fazemos a assepsia em quem vem a nós, e quem não vem? Isso quando fazemos!

A solução está na política partidária?

Como dizia, agora queremos resolver o problema no voto. Bolsonaro é a bola da vez. O futuro presidente que vai estancar a sangria moral, devolver os valores perdidos, etc. Mas, espere! Este problema é somente legal? É simples, se fazem leis banindo a ideologia de gênero (que muitos pastores nem sabem se come assado ou guisado), proibimos as paradas gays e lhes negaremos visibilidade? Não, não e NÃO! O problema não vai ser resolvido. Precisamos compreender a dimensão espiritual dele!

Então, não adianta apenas criar leis contra o aborto. Mesmo que hajam tais leis, haverão pessoas que farão… abortos! E por que farão? Porque não compreendem o valor intrínseco da vida! É o caso do fumo, uma droga liberada, contra a qual a maioria esmagadora dos evangélicos se insurge e é largamente consumida Brasil afora. Aplique-se o mesmo raciocínio à prostituição, às bebidas alcoólicas e uma série de outras coisas, para as quais a solução não está no Congresso Nacional, no Senado Federal, muito menos no Palácio do Planalto.

Entenda o leitor, não estou menosprezando o valor prático da eleição. O que estou tentando mostrar é que o simples fato de termos representantes evangélicos não resolve o problema espiritual de nossa Nação, senão, com o crescimento da chamada bancada evangélica o Congresso já estaria revertendo sua vocação para o descalabro. O efeito prático é próximo de zero. Atente ainda para outra discussão adjacente, do jeito que as coisas estão colocadas nós acabamos levando a pecha de reacionários, conservadores, fundamentalistas. Ainda que sejam adequados e não tenhamos problema algum com eles, tais rótulos nos distanciam do brasileiro comum, capturado no meio de um discurso maniqueísta.

Finalizando…

Adicione-se à questão que venho desenrolando o fato de termos votado em lideranças esquerdistas, ou assumidas ou tendentes a. Ou seja, além de míopes ainda fazemos as escolhas erradas. Volto a Pernambuco. Aqui temos um governador do PSB, partido esquerdista, que foi e é amplamente apoiado pelas lideranças evangélicas pernambucanas, políticas, inclusive. Nesta próxima eleição está coligado com PT, PCdoB, recebeu o apoio do MST e de toda esquerda pernambucana. O que esperar desse caldeirão? É mais uma terceirização de responsabilidades. Votamos na esquerda e queremos colher outra coisa!? É muito pra minha cabeça!

Voltando ao aspecto espiritual da questão, precisamos reconhecer nossos erros. A igreja evangélica brasileira tem crescido, porém, orado pouco, jejuado pouco, lido a Palavra pouco, praticado bem menos ainda. Quem sabe, confiamos demais em nossos números… A qualidade ética de nossa membresia, salvo honrosas exceções, deixa a desejar. Pastores que desviam ofertas, dão golpes, fazem conluio político. Gestões que gravitam em torno de projetos de poder e não em torno do reino. Contradições terríveis entre a pregação e a práxis. Tudo isso corrói a confiança da sociedade na Igreja. É flagrante nossa incapacidade para resolver nossos problemas, como resolveremos os do Brasil?

A constatação óbvia é que, por enquanto, salvo raras exceções, nem somos sal, nem luz para os conterrâneos perdidos.

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