Os perigos do mito fundante para a liderança evangélica

Você conhece o mito fundador? Sabia que é muito mais comum encontrá-lo na liderança eclesiástica do que imaginamos? Vem comigo!

Lideranças são iguais em toda parte. Seu caldo de influências vai desde a filosofia à teologia. Não custa lembrar que a Administração, como a conhecemos, nasceu nos mosteiros. A partir da habilidade dos monges em administrar pequenas quantias para tantas pessoas sob sua liderança o modelo foi copiado e se tornou referência nos primórdios da matéria.

Ainda hoje livros como O Monge e o Executivo, que remetem à liderança com pessoas, ao ascetismo e à rigidez monástica acabam sendo sucesso de vendas. Aqui no Brasil, lançado em 2004, vendeu 1 milhão e cem mil cópias! Há muitos outros bestsellers cuja base teórica é semelhante e os leitores estão sempre ávidos por publicações do tipo.

A administração, de forma generalizada, sofre de alguns males e leva o bônus por algumas virtudes. O pragmatismo tem reinado por décadas desde as novas teorias. Via de regra, líderes tendem ao fordismo e à invenção de mantras para impulsionar os liderados. Todos esses pressupostos encontram eco na Administração Eclesiástica. Que é o ramo da Administração que cuida das igrejas. Não vivemos numa bolha, somos vítimas e autores nesse campo também. Vamos assimilando e transformando ideias nem sempre boas, meramente advindas do ego humano.

Uma delas que nasceu também na Igreja Católica e criou fortes raízes atende por mais de um nome. Uns o chamam mito fundante, outros mito fundador. Os conceitos são amplos e englobam da política à gestão empresarial. Referem-se à tendência de relacionar o mundo cósmico com o humano, mitificando o mandante do momento como um enviado dos deuses para aquele tempo. Busca-se divinizar suas ações, dando-lhes um toque sobrenatural. Permite-se até uma boa dose de ufanismo. O líder, nesse contexto, seria um enviado divino incontestável. Estar contra ele, seria contestar a ordem cósmica, no conceito original grego.

Traduzindo o conceito em termos mais comuns é aquela velha história de o líder dizer algo como: isso aqui era tudo mato quando eu cheguei ou graças a mim somos hoje o que somos. Ele muda a ordem natural das coisas. É um sopro divino. Não é raro a líderes assim criarem monumentos e narrativas tais que descrevem em linguagem mirabolante sua trajetória e como a instituição cresceu ou melhorou a partir de sua assunção ao cargo. Eles sobrepõem os fatos na narrativa de tal forma a criar uma dimensão muito maior que todos os antecessores.

É um comportamento negativo, verdadeira lástima. O próprio Paulo tratou do assunto, quando escreveu em resposta a uma controvérsia em Corinto: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem deu o crescimento” (I Co 3:6)! Os irmãos ali achavam que por ser batizado por A ou B teriam primazia em alguma coisa. Aliás, não é anormal para os líderes que aderiram ao mito fundante as comparações com líderes da Bíblia como Davi, Salomão e até mesmo o próprio Paulo.

Evidentemente não podemos negar a importância do apóstolo para aquele tempo, mas ele não tomou o lugar de mito, como se dissesse que nada havia antes dele. Pelo contrário, sabia que apesar dele a Igreja estava sob comando do Senhor Jesus. E se não houvesse Paulo, haveria outro que seria igualmente usado por Deus para fazer o trabalho. Nós é que achamos que a Igreja Primitiva deve muito a Paulo! Não, Paulo achava que a Igreja devia muito a si mesmo.

Normalmente, esse comportamento decorre da síndrome da formiga e do elefante, da qual falamos em nosso Facebook dias atrás. Conta-se que um dia uma formiga viajava sobre a cabeça de um elefante. Ele galopava rapidamente levantando uma enorme nuvem de poeira numa estrada em linha reta. A estrada ficou curta para a formiga, os passos largos do elefante a faziam percorrer uma enorme distância em poucos minutos e ela se alegrava sentindo o vento passar.

Em dado instante, num arroubo de alegria, olhou para trás, enquanto gritava para o elefante: “Olhe, estamos fazendo poeira!” Na verdade, a formiga não fazia nada, quem estava avançando era o elefante! Ela só aproveitava a paisagem e a carona.

Ocorre algo assim com muitas pessoas em relação à Igreja. O “elefante” de Deus vai correndo a passos largos, avançando sobre a artilharia inimiga, cobrindo distâncias inimagináveis, ganhando almas e fazendo proezas. E a formiga pensando que é ela que estava fazendo o movimento.

Tenhamos cuidado. Na maioria das vezes o que estamos fazendo são meras cócegas no elefante, enquanto ele é quem realmente avança! Os espectadores da cena sabem que o esforço é do gigante e ignoram completamente as palavras da formiga, que muitas vezes só ecoam bem perto do ouvidos ocupados do animal.

Em resumo, puro ego e inchaço carnal! Deus tenha piedade da nossa vã tentação de achar que protagonizamos algo para seu reino.

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