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Perseverança e fé em tempos de apostasia – Lição 06 – Adultos

Subsídio para a Lição 06 - Perseverança e Fé em Tempo de Apostasia.

Perseverança e fé em tempos de apostasia – Lição 06 – Adultos

Prezados 400 leitores, vamos para mais um subsídio de ajuda a nossos ilustres professores e alunos de EBD. Como já perceberam as lições vão se tornando mais complexas e os vídeos e esboços nas redes sociais não deixam dúvidas: o professor que não se preparar terá cada vez mais dificuldades. Esta lição, aliás, vem sendo lida desde o início da semana e agora os conteúdos já devem estar se alinhando para o próximo domingo.

O leitor mais atento já percebeu que o autor aos Hebreus compôs um livro curto, de apenas 13 capítulos. Nos capítulos anteriores ele veio fazendo comparações entre figuras do Velho Testamento e Jesus Cristo. Vai retomar as comparações no capítulo 7 e vai seguir nelas até o 10º! Mas aqui no sexto capítulo há uma pausa para enfocar os aspectos perigosos de uma vida superficial, meramente focada em rituais e aparência externa.

Relembramos aqui dois conceitos interessantes que permeiam o conteúdo da lição: ortodoxia e ortopraxia. Ortodoxia é a correta doutrina, vem de duas palavras gregas: ortos e doxa. A doutrina não pode ser um amontoado de ensinamentos, ordenanças e prescrições apenas. Todos os códigos religiosos do mundo tem uma doutrina pra chamar de sua. A doutrina tem que se impor por ser verdadeira e tão somente isso. Não é o que é bom, atrativo ou interessante, mas o que é correto! Já a ortopraxia, que vem de ortos e praxis, é a prática correta da doutrina. É onde a doutrina demonstra que se tornou prática cotidiana na vida dos seguidores. A junção da ortopraxia + ortodoxia produz um crente fiel e verdadeiro!

A lição tem um objetivo geral, que se repete nos objetivos específicos com outras palavras, com uma sutil divisão em três outros objetivos: Conscientizar que para perseverarmos na fé precisamos crescer em Cristo, estar em constante vigilância e confiar nas promessas. Observe: Para perseverarmos na fé: 1) Precisamos crescer em Cristo, 2)  Estar em constante vigilância e 3) confiar nas promessas. Assim como não se produz um soldado a partir de um pé de banana, como dizia Spurgeon, não se produz um saldo a partir de conceitos difusos. É preciso tempo, paciência, aprendizado, perseverança e fé!

Precisamos crescer não apenas na estatura física, alguns o farão com mais dor que outros. A lagosta periodicamente larga sua casca, a alternativa é a atrofia. Mas também precisamos crescer no nosso desenvolvimento mental. Precisamos mudar nossos objetivos, pensar um pouco mais nas consequências, adquirirmos maturidade e sabedoria.

Mas há um crescimento necessário ao salvo: o conhecimento de Cristo! Pensando, por exemplo, por conta própria e deixando os rudimentos do tempo em que éramos novos convertidos. Deus não pode, por exemplo, ser mais aquele impostor que poderia nos jogar no Inferno por qualquer desvio. Nosso relacionamento com ele não é mais imposto, mas uma alegre obediência baseada no amor. Devemos, porém, ter cuidado para que a liberdade do amor não se transforme em libertinagem, desvirtuando a bondade de Deus e até cauterizando a nossa mente para o pecado. Devemos, outro exemplo, deixar de atribuir poder de salvação aos usos e costumes. Eles devem ser praticados porque somos salvos e não para que sejamos salvos.

Há três ingredientes para esse crescimento espiritual: a oração, o jejum, a leitura e Estudo de sua Palavra. Infelizmente, as pessoas tem abandonado a oração, esquecido o jejum e desmerecido a Palavra de Deus. Precisamos pensar no prazer que temos ao encontrar um velho amigo para conversar. As horas passam rapidamente, parece que os assuntos nunca esgotam. É assim que deve ser nossa oração. Nosso jejum deve ser um sacrifício prazeroso e sincero. E a leitura e estudo da Palavra dispensam comentários. Ainda não inventaram nada que nutra a alma além disso!

Paralelamente, nossa vida vai amadurecendo o próprio relacionamento com Deus. Aprendemos em Salmos 23 que o Senhor é nosso Pastor e nada nos faltará. Seguimos alegres por algum tempo até que as coisas faltam. Falta amor, carinho, víveres e até a fé. Daí, em grande amargura, compreendemos que precisamos aprender estar em necessidade também (Filipenses 4:12). Que é possível até morrer por Cristo como Estevão (Atos 7:55-60). É assim que crescemos: em meio às dificuldades.

Mas a lição também fala da necessidade da vigilância. Eu aprendi que até mesmo na Igreja podemos nos desviar. E isso acontece de várias maneiras, até quando, por exemplo, deixamos de priorizar as coisas certas. Muitos de nós esquecem que a oração e a vigilância devem andar de mãos dadas. De fato, o versículo de Marcos 13:33 usa três verbos: Olhai, vigiai e orai. É isso que devemos fazer.

Ainda seguindo com a introdução precisamos de confiar em Deus. Como já dissemos em outra oportunidade é uma das coisas mais complicadas para nós. Costumamos orar e entregar tudo nas mãos de Deus. E no instante seguinte queremos retomar o controle e fazer do nosso jeito. Não só isso, para muitos de nós, senão para todos em algum momento, queremos ensinar Deus a trabalhar. Quando Ele não faz como queremos, nos pomos a reclamar. Esta semana pus em meu Facebook a seguinte: Ainda bem que Deus não atende todas as nossas orações. Eu me referia à orações que fazemos em meio a grande dor, quase sempre impensadas e intempestivas. Ainda bem que Ele entende.

A necessidade de crescimento espiritual

O primeiro ponto traz diversas informações importantes. A primeira é sobre o batismo em águas. Não foi um ritual criado pela Igreja, mas um sacramento indicado por ela. Lembrando que a Igreja Católica possui sete sacramentos:

  1. Batismo (realizado com as crianças)
  2. Crisma ou confirmação do batismo (no qual afirmam que o batizado recebe os sete dons espirituais)
  3. Eucaristia (algo como a Ceia do Senhor, sem o vinho, somente com a hóstia)
  4. Penitência (confissão de pecados a um sacerdote)
  5. Unção dos enfermos
  6. Ordenação (é a separação em três graus: episcopado, presbiteriado e diaconato)
  7. Matrimônio[1]

Desses as igrejas evangélicas, via de regra, mantiveram cinco:

  1. Batismo (de maiores de doze anos)
  2. Eucaristia (com pão e vinho)
  3. Unção dos enfermos
  4. Ordenação (diaconato, presbitério, ministros)
  5. Matrimônio

Voltando ao batismo, temos que os judeus desde há muito tinham o costume de batizar um novo converso. Para eles isso era tão importante que até era permitido vender a Torá de uma sinagoga para comprar/construir um mikvê, ou tanque batismal.

Mikvê ou tanque batismal antigo

A Igreja Primitiva costumava batizar as pessoas que se decidiam por Cristo (Atos 16:23ss) tão logo se convertessem. Jesus autorizou a seus discípulos este batismo primordial. Em Mateus 28:19, está escrito: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Por onde iam e pregavam os discípulos batizavam pessoas, é o caso da clássica história do eunuco de Candace, batizado por Felipe (Atos 8:38) e o carcereiro de Filipos (Atos 16:33). O batismo era tido como um testemunho público de decisão. Mas esse era só primeiro passo. Não demorou e as pessoas começaram a atribuir o poder de salvação ao próprio ato batismal, tanto que alguns batizam pessoas às portas da morte para que sejam perdoadas de eventuais pecados cometidos ao longo da vida.

Por muitos anos os evangélicos brasileiros olharam para Marcos 16:16 e interpretaram erroneamente: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”. É um eco do entendimento de algumas pessoas da Igreja Primitiva. Então, batismo não salva. Quem salva é Cristo! Devemos nos batizar por sermos salvos, não para sermos salvos. Do contrário restariam perdidos todos os congregados de nossas igrejas e o ladrão da cruz! Assim o fato de ser batizado em águas não significa salvação automática.

Comportamentos semelhantes punham as pessoas de volta ao Judaísmo, fortemente influenciado pelos símbolos e rituais. O Cristianismo prescinde dos ritos para uma vida simples, de relacionamento progressivo com Cristo. Dispensável observar que o exagero com tais rituais não eram senão ecos da seita farisaica que tanto tentou atrapalhar o Senhor Jesus em seu ministério.

O batismo na Igreja Primitiva

Transcrevemos as instruções do Didaquê[4], o mais antigo credo da Igreja:

Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente. Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

A importância dos rudimentos

É importante ressaltar a importância dos rudimentos, como fez o comentarista. O problema abordado nos dois primeiros versículos de nossa lição é que os leitores aos quais se dirigia a carta haviam estacionado neles. As doutrinas do arrependimento, da fé em Deus, dos batismos, da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno deveriam ser lembradas, mas outras deveriam ser adicionadas ao longo de tempo. De tal maneira que os hebreus deveriam ser mestres nelas. Conheci ao longo destes anos na Igreja pessoas que não conseguiram evoluir neste quesito. O próprio entendimento da Bíblia resta prejudicado muitas vezes por isso. Temos irmãos, por exemplo, que pensam que conhecê-la significa memorizar versículos e não estão nem aí para a compreensão panorâmica!

O escritor aos Hebreus propõe que seus leitores possam ir adiante, tanto no conhecimento de Cristo, quanto na comunhão com os santos, fugindo, porém, de expectativas estáticas. A vida se desenrola apesar da volta de Cristo e da esperança do salvo. Tais doutrinas não prescindem de uma vida produtiva neste mundo. Fato que serve a influenciar positivamente as pessoas com as quais convivemos. Precisamos amar, conviver, fazer amigos, ter lazer e todas as outras atividades pertinentes às pessoas e que agradam a Deus e foram criadas por ele para os seres humanos.

A necessidade de vigilância espiritual

Os crentes hebreus, assim como qualquer um de nós, corriam o sério risco de apostatar da fé. A palavra grega apostasia, tinha toda uma carga negativa nos tempos da Igreja Primitiva. Lembremos que a igreja vivia tempos de perseguição. Não era meramente deixar de ir à Igreja, deixar de acreditar em uma doutrina ou outra. Significava preservar a própria vida ou perdê-la. Somente alguém seguro de sua salvação e de seu Salvador não renunciaria à sua fé!

Lê-se, apostassía. Lembrando que o sigma grego sempre tem som de s, nunca de z

Esse pecado se tornou tão repugnante naquele contexto que um cristão que sobrevivesse à perseguição, sem qualquer tortura ou indicação de maus tratos, ganhava automaticamente a repulsa da comunidade, por se supor que aquela pessoa tivesse negado seu Salvador. William Barclay[2] relembra a lenda Quo Vadis. Segundo essa lenda Pedro havia renunciado a Cristo diante de Nero em Roma e descia pela Via Appia quando encontra o próprio Cristo. “Domine”, disse Pedro, “quo vadis”, “Senhor, aonde vais?”. Em seguida, ouviu a resposta: “Pedro, volto para Roma para ser novamente crucificado; desta vez em teu lugar!”. Pedro se envergonhou, deu meia volta e retornou a Roma para morrer como mártir. Esta lenda se tornaria filme em 1951.

Notemos, porém, que apostasia é um mal que sobrevém a quem já é salvo. Só pode acometer uma pessoa que endossa uma determinada fé. O retrato delineado nos versículos 4 e 5 é notório. Ali é descrito alguém:

  1. Anteriormente iluminado;
  2. que provou os dons celestiais;
  3. que recebeu o Espírito Santo e o provou (João 14:23);
  4. Gozou a boa Palavra de Deus e
  5. Virtudes do século futuro!

Para todos efeitos um salvo na pessoa bendita de Jesus!

Infelizmente, alguns atribuem tal personagem àqueles que não estariam predestinados à salvação. Muitos pensam assim por conta da ênfase na palavra impossível. Ora isso tem um duplo erro, primeiro admitir que somente alguns possam atentar para a salvação de Cristo, segundo que sendo contado entre os predestinados possam se perder. E se podem se perder predestinados não eram! Esse tipo de ênfase entre salvos e perdidos desvirtua o verdadeiro entendimento da salvação e inibe a igreja a ir em busca dos perdidos.

Uma seita, dita evangélica, afirma que uma vez caído nestas condições o ser humano jamais poderia se recuperar. Mas não passa de uma interpretação radical. A própria Bíblia afirma: Porque sete vezes cai o justo, e se levanta (Provérbios 24:16a). O próprio apóstolo Pedro é um exemplo disso pois abandonou o Mestre na hora mais amarga e depois foi reconciliado com Cristo, tornando-se uma das figuras mais importantes da história da Igreja Primitiva.

A título de informação observe com seus alunos que há mais três impossibilidades no livro aos Hebreus:

  1. É impossível que Deus minta (6:18);
  2. É impossível que o sangue de ovelhas e bodes possa perdoar pecados (10:4);
  3. É impossível agradar a Deus sem crer NEle (11:6)

A necessidade de confiar nas promessas de Deus

Não é raro os problemas de apostasia iniciarem nas desilusões da vida. Voltando àquele tempo sombrio, de triunfalismos como sempre houve, um cristão ser entregue às feras tanto produzia um sentimento de perplexidade nas arenas, como uma perspectiva de abandono. Transcrevo Ronaldo Lidório[3] que nos conta de George Strauss, que no fim do século 19, zombava dizendo: “Ele não tinha poder. Seus amigos morreram sós, traídos e em sofrimento. Morreram sem glória”. Strauss, diz Lidório, apesar de irônico, liberal e distante da verdade, acertava em sua última afirmação: “Morreram sem glória”. Mas morreram para a glória de Deus.

Assim, nem todos encaravam os fatos da mesma maneira. E isso era um terreno fértil para o Inimigo semear a incredulidade. O próprio Paulo enfrentou esse tipo de problema. Ele relata vividamente como pediu a Deus para ser liberto de um espinho na carne e isso não aconteceu (II Coríntios 12:7-9). Quantos homens e mulheres de Deus morreram da maneira mais trágica e boa parte deles não foi atendido em suas orações.

O escritor aos Hebreus assegura que Deus não injusto para esquecer do nosso trabalho como pode parecer a alguns (Hebreus 6:10). Que temos um precursor adiante de nós: Cristo, que intercederá por nossas necessidades e até mesmo para que não desfaleçamos na fé (Lucas 22:31). Que a nossa fé deve alcançar o lugar mais profundo da nossa adoração, retomando a questão da âncora, a segurança invisível. Afinal crer quando já estamos vendo a vitória não é mais fé!

Conclusão

Portanto, o capítulo 6 é um bálsamo para dias desafiadores como os nossos. Dias em que temos nossa fé testada das formas mais improváveis, dentro ou fora dos templos. Precisamos, assim como aqueles irmãos, olhar cada vez mais para Jesus, do contrário essa semente de amargura chamada apostasia pode brotar em nosso coração e nos tornar apáticos para o agir de Deus no mundo, quando não desviados e distantes da verdade. Se pudéssemos contrastar Cristo neste capítulo com alguma coisa, diríamos: Ele é maior que os nossos dilemas!

[1] http://www.catolicoorante.com.br/7sacramentos.html

[2] Comentário ao Novo Testamento – Hebreus, Barclay, William, CLIE

[3] http://ronaldo.lidorio.com.br/wp/os-filhos-de-issacar-e-nosso-novo-milenio/

[4] http://www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm

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2 Comentários

  1. Eneias disse:

    Muito bom, parabéns meu caro! Esclarecedor…

  2. Eneias disse:

    Muito bom conteúdo, parabéns meu nobre amigo.