Política x Igreja: Uma breve reflexão

A partir da visita do então candidato Aécio Neves à AD no Belenzinho, teço minhas considerações aos apoios políticos eclesiásticos.

Prezados dez leitores, vocês sabem o que penso sobre política na Igreja. Recorram à caixa de pesquisa do lado esquerdo do blog. Três dias atrás o candidato Aécio Neves visitou uma reunião de obreiros da Assembleia de Deus no Belenzinho em busca de apoio. Mesmo que o apoio não tenha sido formalizado é mais do que sintomática tal visita. Os evangélicos podem fazer a diferença em qualquer eleição do País hoje em dia. Gostaria de relembrar por que não vejo com bons olhos tais parcerias:

1) A igreja tem uma só posição (ou melhor, deveria), os candidatos, ao contrário, mudam de lado a todo momento. Isso se chama pragmatismo político. No meio é visto como esperteza. Aqui em PE, só para exemplificar o PSDB tende a se dividir apoiando tanto o PT com Armando Monteiro, quanto o PSB com Paulo Câmara. Não podemos bancar esse jogo. Aliás, seria bom perguntar a exata posição do presidente da CGADB. Em entrevista à Folha de São Paulo, ele afirmou:

Folha: Qual a sua opinião sobre a Dilma?José Wellington: Eu vejo com muito bons olhos. Confesso a você que não votei na Dilma. Eu tinha certos resquícios do PT lá em São Paulo. Mas esta senhora tem superado [as expectativas]. Ela pegou uma caixa de marimbondo na mão, mas tem sido muito honesta com seu governo e com o povo. Hoje, na minha concepção, a candidatura dela é uma nomeação, não precisa nem ir para a eleição, ela é eleita tranquilamente.

Será que ele mantém a opinião? Não sei se estou sendo claro, não podemos entrar nessa guerra, pondo o peso institucional da igreja a serviço desta discussão, exatamente por causa dessas mudanças tão comezinhas aos políticos. Eles desancam um opositor num dia e almoçam com ele no outro. Podemos ser assim?

O jogo político rasteiro não pode ser bancado pela Igreja. Disse isto numa reunião ministerial, mas poucos entenderam. Comecemos pelos partidos. Há os de esquerda, de direita e de centro. Apenas no nome. Há os que estão à direita ou à esquerda das benesses. Só isso. Inúmeras cidades brasileiras tiveram eleições conjugadas entre partidos de todos os naipes. A própria esquerda se divide aos sabor da oportunidade e da conveniência. E nós no meio do tiroteio, fazendo as vezes de gandula. Sabe como é, pega a bola e joga para os experts fazerem os gols. Há até um ou outro irmão que se enturma, mas a bem da verdade já capitulou. Manteve somente a fachada. Termos como covardia, revanche, hipocrisia, mentira, traição não combinam com a igreja bíblica, ainda que se encaixe perfeitamente na igreja real. Ainda assim, esse jogo é muito pesado para não deixar sequelas nas mãos de quem o tente bancar. O mais ingênuo no jogo político conserta um relógio, no escuro, mergulhado numa piscina olímpica! Há os deslumbrados que pensam o contrário, mas ninguém é poupado quando é necessário.

2) A Igreja não tem tradição de politizar seus membros. Não discutirei como fazer isso, nem se é bom ou mau. Via de regra, os irmãos votam por um milheiro de telhas, uma cesta básica, uma dentadura, como, aliás, o fazem boa parte dos brasileiros. A Igreja poderia ser voz ativa no processo, sem tender para nenhum dos lados, instruindo seus membros sobre a importância do voto. Todos querem apresentar candidatos, já sobre a verdadeira arte da política…

3) A associação Igreja x Política já foi malfadada tantas e tão variadas vezes na História que nós já deveríamos ter aprendido a lição. Por falta de tempo, vou recomendar a leitura de Os Votos de Deus, Editora Massangana. Ali há a curiosa constatação, por exemplo, de que as campanhas políticas dentro das igrejas tenha se intensificado a partir da estratégia iurdiana. Ou seja, imitando a IURD igrejas, as mais diversas, adentraram neste lamaçal;

4) As desculpas restam sempre esfarrapadas. Vamos colocar alguém para defender a Igreja? Votem em meu filho, dizem logo alguns pastores presidentes. Outros indicam um genro, um neto, um irmão. As indicações passam sempre por alguém do compadrio ou família. O próprio pastor José Wellington, em que pese meu respeito, tem um filho presidente da Convenção em Campinas que é também deputado federal. Primeiro, ou bem presidente, ou bem deputado. Não consigo ver as coisas por outro viés. No próprio site da igreja[1] ele, modestamente, tem sido indicado para liderar a Assembléia de Deus no Brasil, numa clara referência à CGADB. Então, vamos ver como ficaria o futuro presidente da entidade numa cadeira do Parlamento!? Segundo, não há praticamente nenhum projeto de autoria dos deputados para moralizar o Congresso, enquadrar o Executivo, modernizar o Judiciário, nada moderno ou inovador. Todas as poucas propostas giram em torno de projetos casuístas, alguns dos quais viram até motivo de chacota. Uma coisa é certa: se fosse para ganhar pouco ninguém fazia o sacrifício! Agora como o trabalho é pequeno e a vantagem é grande, todo mundo quer defender a Igreja. Vereadores e deputados evangélicos tem se mostrado apáticos às verdadeiras necessidades de nosso povo. Somente demandas morais mobilizam nossos nobres. Aqui e acolá um aceno inócuo como o Dia da Consciência Evangélica, que em alguns lugares é ou será em 31/10. Ora, ora, se muitas igrejas sequer falam da data… É coisa pra inglês ver. É uma pena que essa situação se perdure, por tanto tempo. Sobrevivendo como rescaldo de nossa atuação clientelista, adesista e fisiológica;

5) Esse negócio de político não crente sentar em púlpito é difícil de entender. Muitos políticos roubam descaradamente o povo, desviam milhões, vivem desregradamente, no fim da contas, só pode se considerar bem recebido se sentar no púlpito. Ora, pessoal, é um lugar destinado aos salvos. Sentem-nos numa cadeira bem confortável.

 
 

Já viu ou ouvi de candidatos não evangélicos cantando e tocando violão em púlpitos, fazendo discursos em aniversários de pastores, falando de doações em pleno culto, invadindo Santas Ceias. Onde esse circo vai parar? Uma coisa é receber bem, outra é o acinte. Em 2009, a então candidata Dilma, notória opositora das bandeiras evangélicas, também sentou no centro deste púlpito, onde recebeu uma Bíblia e até discursou [2].

 

6) De uma vez por todas encacholem o seguinte: o que interessa aos políticos é o voto evangélico. Não comungam de nossas crenças, não concordam com nossas bandeiras, torcem o nariz para nossos modos. Mas os votos eles querem;

7) Quero relembrar a Lei 9.504/97, que proíbe a propaganda em igrejas. A razão é muito simples: ausência de isonomia. Daremos o mesmo espaço e oportunidade para todos os candidatos? Certamente, não. Então, nada a nenhum. Esta é a letra da Lei. Depois não digam que o Diabo está furioso. Esse negócio de candidato indicado além de ilegal é imoral. Já pensaram na romaria de candidatos agora em cada reunião do ministério!? Na próxima reunião ouviremos falar da visita de Marina Silva, vice de Eduardo Campos e membro da igreja, trazendo a tiracolo o próprio? Na outra Eymael? Quando será a vez do Pr. Everaldo? E se Zé Maria quiser ir?

8) Teríamos a opção de criar um partido evangélico (algo já sugerido pela CGADB e colocado em prática pela IURD, viu como as informações do livro se encaixam?), mas a história mostra que essas iniciativas só são versões das mesmas práticas. No final das contas, tais partidos se rendem ao sistema político, incutindo os mesmos nefastos valores. Precisamos entender que tudo na política gira em torno de dinheiro e poder. Simples assim. Por eles se sacrifica reputações, biografias, projetos e tudo o mais. E não ousam em ser autofágicos. Se este jogo bizarro nos parece lícito… Boa parte dos políticos que temos venderia a própria mãe, por que não uma igreja?

9) A figura do pastor que se aproveita do jogo político para a promoção pessoal ou de alguém de sua família, no melhor estilo capo italiano, tem cada vez mais espaço na cena evangélica. Uns diriam que é uma vantagem competitiva, que o autor está pensando no futuro, que saiu na frente da concorrência. Do ponto de vista egocêntrico é uma ótima ideia. Mas a igreja não pode ficar à mercê de caprichos pessoais. É interessante observar como os atores mudam até mesmo o linguajar dos pastores. Termos como massificar nomes, cristalizar opiniões, indicar um catalisador, trazem em si aquele exclusivismo déspota que estamos acostumados a ouvir falar. É repugnante que alguém, por exemplo, não seja claro o suficiente sobre o que quer ao apoiar ou lançar um candidato. Quando obriga a que uma igreja vote naquele obscuro projeto, a coisa toma ares de ditadura. Falou-se, por citar São Paulo, que Haddad seria um poste de Lula. Quantos postes não foram lançados pelos pastores? Sem planos, sem propostas, sem projetos, sem vida própria, mas com o apoio, sabe-se lá por que, do nível superior da hierarquia religiosa. Mas a coisa vira bagunça mesmo é quando os contrários são punidos. Não é um quadro raro de encontrar nos ministérios Brasil afora. Tenho informações de vários irmãos em todo País, que estão vivenciando isto em suas congregações. Em muitas tal comportamento anemizou a relacionamento entre a liderança e os liderados. Certamente não é o que Deus deseja. Mas muitos preferem que as amizades sangrem. O culto de doutrina é utilizado para espinafrar a rebeldia. Aqui temos um grande exemplo dessa prática aética e antibíblica.

10) Para finalizar gostaria de rechaçar outra ideia. É aquela que almeja tornar o Brasil um país evangélico, pois que governado por um filho de Deus. Como se assim todos os problemas estivessem resolvidos. Está aí a Inglaterra, cuja democracia tem até religião de Estado, a ensinar que tal proposta não atende aos pressupostos. A Grã-Bretanha não é mais, nem menos abençoada por ser anglicana, muito menos evangélica. De resto, outras tentativas já foram feitas ao redor do mundo, sempre com fracassos retumbantes. No Brasil, Estados já foram governados por evangélicos com tristes exemplos de falcatruas, desvios e transgressões da Lei. Que o Pr. Everaldo seja candidato e se eleja é plausível. Mas porque pastor aí não dá.

Não sou avesso à política, pelo contrário. Entendo que faz parte do jogo democrático a existência de partidos, a militância, as eleições, o voto. Porém, quando há um pendor institucional, por vezes obscuro, em torno de nomes e projetos de caciques políticos aí não dá. Sem esquecer que tal postura fere frontalmente nossas leis. O apoio deslavado a um candidato em detrimento de outro, sob o suposto manto da orientação espiritual é crime! Uma coisa é o pastor ter uma afinidade, outra é impor a opção, muitas vezes sob ameaças aos subordinados. E se ele usar a Igreja perde de vez minha admiração.

Leia aqui uma breve crônica das eleições no meio evangélico.

[1]http://www.adcamp.org.br/ministerio/resultado.asp?pp=S
[2]http://noticias.uol.com.br/politica/2009/10/05/ult5773u2675.jhtm

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1 Comentário

  1. Ir. Marcos disse:

    Paz do Senhor,

    Caro Pastor Daladier, compactuo do mesmo pensamento. É inconcebível a Igreja se rebaixar ao nível da politica.
    E no que diz respeito a assentar políticos (não evangélicos e se evangélicos sem saber o proceder do mesmo) no púlpito, ABERRAÇÃO!
    Púlpito é lugar reservado aos santos, aos obreiros do Senhor.
    Quantos saindo de uma Igreja para outra (seja da mesma denominação) passa um tempo em observação, e que sentido faz isso para obreiros e assentar autoridades politicas no púlpito.
    Me pergunto se Jesus não voltar o que devemos esperar da Igreja Evangélica brasileira nos próximos 100 anos, o que deixaremos como legado.
    Sejamos taxados de quadrados, de ultrapassados, mais olhemos para o que Jesus ver de nós, que nossas atitudes, no liturgia, nossa doutrina, nossa postura, nosso serviço AGRADE A DEUS!O resto é resto.

    Boa matéria meu irmão.

    Paz do Senhor.