Quem domina a sua mente?

Quem domina sua mente? Subsídio para a Lição 06 - A abordagem se volta para o campo das batalhas mais ferozes: a mente humana! É lá onde se processam as batalhas mais decisivas.

Prezados leitores, são passadas cinco lições deste trimestre, vamos caminhando para a sexta. Somos gratos a Deus pela oportunidade de interagir com tantas pessoas e a vocês por terem nos acessado. Vamos adiante analisando o tema Quem domina a sua mente?, assunto desta 6ª lição do nosso trimestre.

Perceba que o comentarista retomou o estilo das demais lições. É só uma observação marginal. Por outro lado, não consigo compreender porque ele escolheu Filipenses para falar sobre esse assunto. Creio que Romanos 12 seria um texto infinitamente mais apropriado, mas sigamos. O professor deverá fazer uma certa ginástica para compreender o objetivo da lição, nada que já não seja realidade para muitos que esforçam no ensino da EBD.

Reproduzimos novamente o texto da lição (exceto algumas partes), para ajudar seu foco e não força-lo a ter de sair para consultá-la. O conteúdo da lição vai em azul e nossos comentários e subsídios em preto. Vamos em frente!?

Texto Áureo

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (Fp 2.5)

A humilhação de Cristo é impressionante. Vivendo sem limitações do tempo e no espaço, tornou-se homem limitado. É uma boa pista daquilo que deve ocupar nossa mente: os valores eternos. Por um momento o sofrimento e, enfim, a glória ao fazer a vontade do Pai. Isaías 53:10 diz que ao Senhor agradou moê-lo. Havia uma humanidade inteira a ser salva e ninguém podia fazer um sacrifício tão grande a não ser o Filho.

O salvo, igualmente, é alguém que rejeita os prazeres deste mundo, buscando agradar a Deus e usufruir da eternidade com Ele. É este sentimento que deve nortear nossa conduta assim como ocorreu a Cristo: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus (Hebreus 12:2)”. Quem com Cristo reparte a cruz, com Ele repartirá a glória!

Verdade Prática

Os substantivos “mente”, “sentimento” e “entendimento” pertencem à esfera do intelecto, que permite à pessoa aprender, desejar, pensar e agir.

Leitura Diária

Leitura Bíblica

Leitura Bíblica em Classe

Filipenses 4.4-9
4 – Regozijai-vos, sempre, no Senhor; outra vez digo: regozijai-vos.
5 – Seja a vossa equidade notória a todos os homens. Perto está o Senhor.
6 – Não estejais inquietos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças.
7 – E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.
8 – Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.
9 – O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco.

Objetivo geral

Mostrar que o seguidor de Jesus tem a mente de Cristo.

Objetivos específicos

I- Explicar a epístola aos Filipenses;

  1. É uma das cartas da prisão, ou seja, escrita enquanto Paulo estava preso em Roma, por volta de 60 d.C.;
  2. Filipos era um centro estratégico comercial de sua época. Nos arredores minas de ouro e prata exploradas desde a época dos fenícios, já exauridas na época do Cristianismo, tinham feito com que o lugar florescesse;
  3. A cidade dos tempos de Paulo foi fundada por Filipe, o pai de Alexandre Magno, em 368 a.C.. No local há uma cadeia montanhosa que divida a Europa da Ásia, portanto, dominava a rota entre os dois continentes;
  4. Foi ali onde Marco Antonio derrotou Marco Júnio Brutus e Caio Cássio Longino, representantes de Augusto, em 42 a.C., decidindo o futuro do Império Romano. Brutus entre outros havia assassinado o pai de Antonio, Júlio César;
  5. Os veteranos dessas batalhas instalaram-se em Filipos, e a cidade acabou ganhando status de colônia romana e o Ius Italicum, o que a tornava uma réplica menor de Roma. Seus cidadãos tinham cidadania romana e possuíam inclusive direitos de propriedade equivalentes aos de uma terra em solo italiano. Os oficiais políticos eram descendentes dos soldados romanos, o que reforçava ainda mais o caráter latino da cidade, refletindo também seu pensamento e religião. Eram freqüentes os cultos às divindades romanas, como Júpiter, Juno e Marte, e aos antigos deuses italianos. As divindades gregas não tinham muito destaque. Persistia, porém, a adoração aos deuses trácios.

II- Conceituar a palavra “mente” no contexto bíblico;

Como veremos mais adiante, o termo mente tem conceitos um pouco distintos no mundo do Velho e do Novo Testamentos e de lá pra cá muita coisa mudou. Entre estas duas épocas se passaram 400 anos (o período interbíblico) no qual surgiu toda influência do modo de pensar grego. O Novo Testamento está impregnado por ela.

Não estamos fazendo juízo de valor até porque são duas escolas que se complementam. Basta-nos apenas observar a mudança de paradigma linguístico do hebraico para o grego. Sem menosprezar a língua do AT temos de reconhecer a precisão distinta do idioma de Homero. É de tal importância compreender isto que o NT foi escrito e se disseminou em grego.

III- Expor o conceito da expressão “a mente de Cristo”.

A mente de Cristo representa não o conceito judaico a priori, muito menos o grego. Mas é a mais elevada síntese do entendimento cristão. A mente de Cristo é o objetivo a ser perseguido por todo cristão que quer morar com Deus!

Introdução

Quem nasceu de novo é nova criatura, e assim a vida cristã é norteada pelo Espírito Santo. Isso significa que nós, como cristãos, não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. A presente lição é uma reflexão introspectiva sobre a nossa maneira de viver, as nossas atitudes e as nossas decisões, e se realmente Jesus é o Senhor de nosso pensamento.

A mentalidade cristã é antagônica à realidade terrena. O salvo, como alguém já disse, adora um morto vivo, ceia em honra de alguém ressurreto ao terceiro dia, vive na expectativa de ser arrebatado a qualquer momento, é guiado por um tal Espírito Santo, seus valores não são imediatistas, mas eternos, ou seja, vai na contramão do mundo.

Infelizmente, esse paradigma nem sempre se torna realidade. Certas práticas encontradas na vida de muitas pessoas que se dizem evangélicas destoam radicalmente dos padrões espirituais esperados de alguém que vive sob a direção do Espírito. O todo mundo faz encontra eco crescente entre muitos salvos, até líderes e o Diabo encontra terreno fértil para desmerecer o Evangelho.

I – Sobre a epístola aos Filipenses

Filipos era uma colônia romana e uma das principais cidades da Macedônia. Paulo esteve na cidade por ocasião de sua segunda viagem missionária e ali fundou a primeira igreja europeia. Isso aconteceu na casa de uma empresária chamada Lídia, vendedora de púrpura. O apóstolo deixou a cidade por causa das pressões locais, mas o relacionamento entre ele e os filipenses continuou. Cerca de dez anos depois, Paulo escreveu de Roma a esses irmãos, por volta do ano 62 ou 63 d.C.

A leitura do capítulo 16 de Atos, nos informa que a intenção de Paulo fora frustrada pelo Espírito Santo. Por volta do ano 52, ele ia para Bitínia, em sua segunda viagem missionária, quando em sonho foi orientado a ir para a Macedônia. São destinos opostos, a Macedônia é a região atrás de Filipos e a Bitínia ficava no sentido de Antioquia. Seu trajeto incluía Trôade, na Ásia Menor, o porto de Neápolis, na Europa e daí Filipos.

Vemos como o evangelho havia se tornado universal, pois Paulo ia de um continente ao outro, com os parcos recursos que possuía. O próprio capítulo 16 mostra isso, pois Lídia era uma vendedora asiática de uma das mercadorias mais caras de então, a púrpura, a endemoninhada escrava usada para dar lucro com suas adivinhações era grega, e o carcereiro era romano. Cada um representava uma das classes sociais, não obstante todos terem sido tocados pelo evangelho. Não por acaso, quando os judeus se encontravam e se saudavam, diziam: Paz, quando os romanos escreviam cartas, iniciavam com: Graça, Paulo ao escrever aos filipenses inicia com: Graça e paz…

Mapa da região de Filipos

Mapa da região de Filipos

A estrutura da carta

Introdução 1.1-11
Saudação 1.1-2
Ação de graças 1.3-8
Oração 1.9-11
I. Circunstância da prisão de Paulo 1.12-26
Avançaram o evangelho 1.12-18
Garantiram a bênçãos 1.19-21
Criaram um dilema para Paulo 1.22-26
II. Exortações 1.27-2.18
Vida digna do evangelho 1.27-2.4
Reproduzir a mente de Cristo 2.5-11
Cultivar a vida espiritual 2.12-13
Cessar com murmúrios e questionamentos 2.14-18
III. Recomendações e planos para os companheiros de Paulo 2.19-30
Timóteo 2.19-24
Epafrodito 2.25-30
IV. Advertências contra o erro 3.1-21
Contra os judaizantes 3.1-6
Contra o sensualismo 3.17-21
Conclusão 4.1-23
Apelos finais 4.1-9
Reconhecimento das dádivas dos filipenses 4.10-20
Saudações 4.21-22
Bênção 4.23
Fonte: Bíblia de Estudo Plenitude
A epístola aos Filipenses possui 4 capítulos e 103 versículos e é endereçada a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos (Fp 1:1). Evidentemente se aplica a todos os salvos em Cristo de todos os tempos. Tem a seu favor o mérito de nunca ter havido disputas significativas quanto ao seu conteúdo e autoria. Indispensável que todo professor ou aluno da Escola Dominical possa lê-la e analisá-la detidamente.

1. A doutrina

O objetivo da carta não era solucionar problemas doutrinários nem de relacionamentos entre os filipenses, pois eles haviam amadurecido rapidamente. Um dos propósitos estava vinculado à amizade e ao amor recíproco do apóstolo (Fp 1.7-9; 4.1). Os problemas referentes às heresias eram periféricos. O apóstolo trata desse assunto mais como precaução. Paulo menciona os legalistas no capítulo 3, mas não era algo agudo na Igreja, visto que em Filipos nem sequer havia sinagoga (At 16.13). Isso mostra que a população judaica não era significativa na cidade. Note que seus habitantes consideravam-se romanos (At 16.21). Não havia nada de muito grave na igreja que o apóstolo precisasse corrigir.

Filipos foi uma das igrejas à qual Paulo não repreendeu em nada. Ao contrário de igrejas mais efusivas, nada havia para ser consertado ali. Em Corinto não faltava nenhum dom (I Co 1:7), porém, a carnalidade era tal que um crente daquela Igreja se relacionava com a mulher de seu pai (I Co 5:1).

Os irmãos de Filipos eram generosos e ajudaram o apóstolo em suas necessidades. Foi uma das poucas igrejas das quais Paulo aceitou tal ajuda. Evidentemente não era uma igreja perfeita, mas possuía uma ortodoxia perfeita. Paulo tinha estreita ligação com a congregação ali por havê-la fundado, por volta de 50 d.C. Dez ou doze anos depois endereçaria esta missiva.

2. O relacionamento

Havia entre os filipenses alguns problemas que são próprios da natureza humana e comuns nas igrejas ainda hoje (Fp 1.27; 2.3,14). É possível que o pedido do apóstolo para ajudar as irmãs Evódia e Síntique indique algum problema de desentendimento entre elas (Fp 4.2). O apóstolo pede que haja unidade e harmonia entre os crentes, tendo por base a humildade e o exemplo de Cristo. 0 apelo paulino é para que haja entre os filipenses “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).

O relacionamento traduz parte da ortopraxia. É nos relacionamentos cotidianos que a Igreja revela se aprendeu e pratica o que lhe foi ensinado ou se despreza tudo isso em nome de conveniências e crenças individuais. Se na doutrina temos a ortodoxia, o correto aprendizado, no relacionamento temos parte da ortopraxia, a práxis correta. A combinação destes dois ingredientes representa, espiritualmente, ferrolhos para a atuação do Inimigo.

Como as ovelhas se relacionam com seu pastor? Respeito? Admiração? Empatia? Idolatria? Como o pastor se relaciona com suas ovelhas? Amor? Carinho? Zelo? Cuidado? Imposição? Opressão?

O versículo 2 do capítulo 3, ainda hoje é um divisor de águas na avaliação da maturidade cristã: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” E não poucos crentes tem sido reprovados neste quesito. Hodiernamente, não raro, se busca como prevalecer uns sobre os outros na Igreja. Este comportamento revela a soberba do coração humano não submetido totalmente a Cristo. A metáfora do AT é Efraim, a quem Deus denominou um bolo assado apenas de um dos lados (Os 7:8), ou seja, somente um lado era convertido o outro não. Já no NT o Senhor Jesus repreende o anjo da igreja em Sardes: Confirma os que estão para morrer, referindo-se à morte para o pecado.

Ampliando a perspectiva, quantos crentes em seus relacionamentos amorosos tem perdido a cabeça e dado excelentes oportunidades para o Inimigo de nossas almas? Quando não se entregam à prostituição, praticam a fornicação. Quantos de nossos jovens entram em relacionamentos com pessoas não evangélicas ou não convertidas e depois sofrerão amargamente com as crises do jugo desigual? Isso também é ter uma mente subordinada a Cristo. Ele precisa ser honrado em nossos relacionamentos amorosos.

Aliás, as famílias desestruturadas, portanto em crise de relacionamento, são um oásis para a atuação maligna.

3. O ensino

Filipenses é uma epístola prática, e os pensamentos teológicos aparecem casualmente, como no parágrafo teológico por excelência, no capítulo 2.5-11, e no lar celestial prometido aos cristãos, no final do capítulo 3. O sentimento de gozo e regozijo dominava os crentes de Filipos, e este é um dos temas da carta: a alegria. A Igreja de Filipos é um exemplo a ser seguido por todos; isso porque havia nela o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.

A Cristologia de Paulo em Filipenses alcança um nível elevado. O conceito da kenôssis (Fp 2:7) já foi amplamente discutido nos tratados de teologia. O que é esvaziar-se? Ter forma de Deus? Fugiria ao assunto desta lição, mas mostra a profundidade do ensino paulino e vale a pena o aluno se aprofundar quando dispuser de tempo.

Por outro lado, como disse o comentarista, Filipenses é conhecida como a epístola da alegria, termo recorrente em seu texto. Poderíamos destacar cinco áreas da alegria paulina:
  1. Alegria na oração (Fp 1:4). Paulo se regozijava não apenas de relembrar os filipenses em suas orações, como nelas orar por eles. Entendem? Não apenas tinha alegria por orar, e a consciência da importância deste ato para o bem dos filipenses, como relembrar cada um daqueles que delas precisavam. Barclay conta que George Reindrop em seu livro No Common Task (Uma tarefa incomum), fala de uma enfermeira ensinou a orar a um doente e ao fazê-lo mudou todo o esquema de sua vida fazendo de uma criatura torpe, desgostada e desanimada um homem cheio de alegria. As mãos da enfermeira lhe serviam para trabalhar, mas também lhe serviam como esquema de oração. Cada um de seus dedos representava a alguém. O polegar, que estava mais próximo, a ela lembrava que devia orar pelas pessoas mais próximas, íntimas e queridas. O índice que se usa para assinalar representava os que nos ensinam e nos assinalam quando nos interrogam. Portanto o índice lembrava a todos seus professores da escola e o hospital. O dedo do meio que é o mais alto representava a todas as pessoas destacadas em todas as esferas da vida e em todos os partidos. O anular que é o dedo mais fraco, como sabe todo pianista, representava aos fracos, afligidos e angustiados. O mindinho é o dedo mais pequeno e menos importante: a enfermeira via-se representada nele.
  2. Alegria de saber que Jesus está sendo pregado (Fp 1:18). Certamente a maior alegria do cristão verdadeiro é distribuir as boas novas do Evangelho. O próprio Jesus enfatizou: De graça recebestes, de graça dai (Mt 10:8). Não podemos fazê-lo constrangidos, mas de bom grado. Esta epístola foi escrita na prisão, mas Paulo não estava preocupado com esta circunstância, trabalhando incansavelmente para anunciar a Jesus (Fp 1:13).
  3. Alegria da fé (Fp 1:25). Alegria por ter encontrado a Cristo, a felicidade maior. Estar alegre na fé é manter uma atitude firme e destemida diante dos desafios da vida. É a alegria de andar com Ele e como Ele andou.
  4. Alegria na comunhão (Fp 2:2). O salmista exclama: Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união (Sl 133). É a união a mais bela expressão da igreja (Sl 122:1). Não são os hinos bem ensaiados, nem os jograis bem recitados, nem os versículos bem citados, muito menos um bem adornado templo ou programa televisivo. A maior alegria de Deus é ver seus filhos unidos.
  5. Alegria no sofrimento (Fp 2:17). Policarpo, bispo de Esmirna, que foi martirizado em 155 d.C. e antes disso havia endereçado uma carta aos filipenses, disse antes de ser queimado vivo: Dou-te graças, Pai, porque me julgaste digno desta hora[1]! Quando o procônsul romano, Antonino Pio, e as autoridades civis o instaram a renunciar a fé, afirmou: Há oitenta e seis anos sirvo a Cristo e nenhum mal tenho recebido Dele. Como poderei negar Aquele a quem prestei culto e rejeitar o meu Salvador?

II – Sobre a mente no contexto bíblico

Há diversos termos nas línguas originais da Bíblia para “mente” e seus derivados. Vamos estudar alguns deles aqui. Cada termo apresenta diferenças sutis, mas significativas.

1. A mente como faculdade psicológica

O Novo Testamento grego emprega o termo nous, de amplo significado, como “mente, entendimento, intelecto, pensamento, sentido” (Rm 11.34; 1 Co 2.16; 14.14; 2 Co 11.3). Na presente lição, o sentido dessas palavras é de uma faculdade psicológica que envolve compreensão, raciocínio, pensamento e decisão: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, sou escravo da lei do pecado” (Rm 7.25, Nova Almeida Atualizada). O apóstolo Paulo está se referindo ao “eu” regenerado em contraste com a carne, sem o controle do Espírito Santo. É com essa mente cristã que desejamos a lei de Deus, ou seja, “a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” (Rm 8.2).

O termo empregado é νοῦς, que se pronuncia núss. Dizem os especialistas que o ser humano é o único capaz de pensar em três dimensões: tese, antítese e síntese. É o único capaz de formular uma ideia, discordar dela ou atacá-la de forma coerente, sintetizá-la, ampliá-la, descrevê-la em outros termos, enfim. Somos capazes de escolher uma palavra aleatória e produzir uma redação imensa em torno dela.

Já existem equipamentos capazes de produzir texto a partir de uma palavra, mas incapazes de pensar por conta própria. O Google é algo assim. Um algoritmo de computador que pensa e até se antecipa a alguns comandos humanos. Mas são comandos previamente inseridos e direcionados para um objetivo. São bilhões de informações inseridas de maneira lógica e organizada que fazem o Google e outros sistemas pensar por nós. Mas não sem nós!

Por outro lado, somos os únicos capazes de nos incomodar com determinada situação e tomar decisões repentinas a respeito. Jamais veremos um cachorro mal alimentado abandonar seu dono. Ele vai no açougue, rói um osso qualquer e retorna para sua pobre casa. O ser humano, ao contrário, pode se indignar com uma situação semelhante e fazer algo prático a respeito.

Somos os únicos capazes de premeditar nossa morte, pelos mais variados motivos. Quando animais morrem à falta de seus donos, isto reflete a quebra de um laço social e não suicídio. Por outro lado, somos os únicos a temer a morte como realidade fática. Animais choram, reconhecem seus mortos e têm medo de cadáveres, por exemplo, mas não temem a morte “como uma realidade”[1].

2. A mente como forma de pensar

A mente aparece também no Novo Testamento como uma maneira ou forma especial de pensar. A ideia nesse caso é de disposição e de atitude, tanto no sentido negativo: “estando cheio de orgulho, sem motivo algum, na sua mente carnal” (Cl 2.18, Nova Almeida Atualizada); como positivo; “armai-vos também vós com este pensamento” (1 Pe 4.1). Assim, ter “a mente de Cristo” (1 Co 2.16) significa pensar como Ele.

Esse conceito encontra seu ápice em Romanos 12:2. Ali é utilizada uma palavra grega, que até tomamos emprestado, συσχηματίζω (lê-se, syschematizô), e fala de conformar-se a determinado contexto. Assim como a massa numa forma dará à luz a um bolo conformado ao seu formato, uma mente conformada a determinada realidade a ela se amolda.

Por natureza nossa mente se conforma ao pecado, aos ditames deste mundo e a quem o domina (I Jo 5:19). A prática do pecado é tão natural para as pessoas sem Cristo, que somente através da luz da Palavra de Deus se dão conta que estão erradas. Ou seja, de modo natural jamais compreenderiam seus erros. E aí está mais uma razão pela qual a Bíblia é a verdade. Sua leitura ou exposição, através da pregação, lança luz sobre as trevas da alma humana, fazendo com que o espírito compreenda que está perdido e sem salvação, se não se entregar a Cristo.

O entendimento renovado proposto por Paulo em Romanos nos conforma à mente de Cristo. Ele é gerado em nós pela regeneração (Gl 4:19) e nos conduz a pensar como Ele. É o que Paulo ensina também em Colossenses 3:1: Buscai as coisas que são de cima… Sem Ele nossos objetivos são só terrenos e, não raro, egoístas.

3. Espírito

O substantivo grego pneuma, traduzido geralmente por “espírito”, é usado ainda de forma metafórica como modo de ser, atitude, forma de pensar: “se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão” (Gl 6.1). É uma atitude ou modo de ser que reflete a forma como uma pessoa encara ou pensa sobre um assunto. Essa expressão é usada em contraste entre o divino e o meramente humano (Mc 2.8; At 17.16; 1 Co 2.11; 5.5; Cl 2.5).

Lembramos aqui a famosa colocação de CristoVós não sabeis de que espírito sois (Lc 9:55). Espírito aqui é uma tendência, uma intenção, a expressão do raciocínio interior.

4. Coração

O coração aparece em toda a Bíblia como o centro da vida física, espiritual e mental; emotiva e volitiva. É a fonte de vários sentimentos e afeições, como alegria e tristeza (Pv 25.20; Is 65.14). 0 coração é a sede do pensamento e da compreensão (Dt 29.4; Pv 14.10). Seu uso metafórico aparece como a fonte causativa da vida psicológica de uma pessoa em seus vários aspectos, mas a ênfase especial nos pensamentos significa o “homem interior” (Mt 22.37; 2 Co 9.7; Rm 2.5). Esse sentido aparece também no Antigo Testamento: “guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida” (Pv 4.23).

É o termo, por excelência, que reflete o entendimento do Velho Testamento. Ao contrário daqueles que menosprezam esse entendimento como primário (o secundário e mais desenvolvido viria com o pensamento grego) lembramos que seria um anacronismo comparar em pé de igualdade as duas épocas. Ora, o que é anacronismo senão contrapor costumes, tecnologias, eventos de uma época em outra, sem o cuidado de delinear o modus vivendi , ou modo de vida vigente em cada uma delas. É como procurar na Bíblia a aplicação da palavra coração como temos hoje em dia em nossas expressões amorosas.

Deus não falhou na inspiração do VT porque o coração era compreendido como orgão onde se processavam as emoções. Aliás, é o coração que dispara diante do medo ou de uma surpresa ou não? Ainda que de modo menos evidente os conceitos de mente como faculdade psicológica, forma de pensar e espírito estão presentes nesta parte da Bíblia.

A prova de que são sinônimos para este entendimento é que o NT repete os conceitos: Limpos de coração em Mt 5:8; Coração adúltero em Mt 5:28; Coração como repositório de intenções em Mc 7:21; A palavra que é tirada do coração em Lc 8:12; O Senhor abriu o coração de Lídia em At 16:14). Observe que Paulo compreendia perfeitamente os conceitos do ponto de vista judeu e grego e os intercambiava em suas cartas.

Subsídio doutrinário

A palavra grega metanoia sugere, fortemente, que o pecador mergulhe para além da mera consciência intelectual quanto à pecaminosidade. Mas que o faça com tal ímpeto e repulsa, que o leve a rejeitar o mal e a seguir a Cristo, desejando aprender cada vez mais do Salvador (Mt 3.8; At 5.31; 20.21; Rm 2.4; 2 Co 7.9,10; 2 Pe 3.9).

Vejamos, agora, o lado positivo da conversão. O pecador deve não somente ‘voltar-se de’ mas ‘voltar-se para*. Assim, voltamo-nos do pecado para voltarmo-nos para Deus. O voltar-se para Deus é um ato de fé. Consiste em se entrar numa relação positiva com Deus. É algo central na experiência cristã; enfatiza a importância da fé. ‘Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam’ (Hb 11.6). Todas a nossas relações com Deus acham-se ancoradas na fé” (MENZIES, William W; HORTON, Stanley M, Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé, Série: Clássicos do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p.86).

O termo μετάνοια (lê-se, metánóia) é uma palavra grega que ocorre 22 vezes no NT, apenas 4 nas cartas paulinas. Significa mudança de mente. Esta é outra das razões pelas quais somos diferentes dos animais em geral. Jamais encontraremos um tigre arrependido por ter comido os filhotes de um javali. Somente os seres humanos são capazes de, uma vez convencidos, se arrependerem de alguma atitude. E mais: capazes de viver daí pra frente conforme esse arrependimento, voltando a não mais praticar os erros de outrora.

Traduzindo, somos capazes de: 1) Reconhecer um erro; 2) Arrepender-se dele; 3) Pedir perdão; 4) Viver sem praticá-lo novamente, se assim o desejarmos e ensinar a outros como não errar ou sobre os efeitos nefastos desse erro.

III – Sobre a mente de Cristo

O sentimento que norteava a vida dos irmãos filipenses era de alegria e de comunhão. É isso que deve prevalecer na vida cristã em todos os lugares e em todas as épocas.

1. O sentimento de alegria.
“Regozijai-vos” é uma saudação grega, mas aqui Paulo exorta os filipenses e todos os cristãos à alegria. O apóstolo acrescenta: “sempre, no Senhor”. O Senhor Jesus é a fonte inesgotável de gozo e alegria, e isso dá à saudação um sentido complemente novo. Como resultado desse estado de graça está o bom relacionamento do cristão com as demais pessoas. O termo “equidade” (v.5) é a tradução do adjetivo grego epieikés, “compreensivo, bondoso, benigno”. A Almeida Revista e Atualizada traduz por “moderação”. Essa deve ser a atitude de quem tem a mente de Cristo em relação às pessoas que nos rodeiam. É o que Deus espera de todos nós. A expressão “perto está o Senhor” (v.5) diz respeito à vinda de Jesus que se aproxima (Ap 1.3; 22.10) e nos inspira a essa moderação.

2. Nossa gratidão a Deus.
Os filipenses viviam num clima de perseguição religiosa. Paulo estava na prisão. Mas nada disso era problema suficiente para roubar a alegria dos crentes: “a alegria do SENHOR é a vossa força” (Ne 8.10). Mesmo nas dificuldades, quem tem uma mente guiada por Cristo não se desespera; antes, as suas petições são levadas à presença de Deus “pela oração e súplicas, com ação de graças” (v.6).

3. A paz de Deus.
O termo noema, “pensamento, mente”, diz respeito à faculdade geral de julgamento para tomar decisões, no sentido de bem ou mal, certo ou errado. A ideia dessa palavra é de entendimento da vontade divina concernente à salvação (2 Co 10.5). Esse noema pode se corromper (2 Co 11.3) e se tornar endurecido (2 Co 3.14), a ponto de impedir a iluminação do evangelho de Cristo (2 Co 4.4). Mas a paz de Deus na vida cristã está acima de todos os bens que uma pessoa pode adquirir e sobrepuja a todo entendimento, pois vai além da razão humana. Ela excede “os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (v.7).

CONCLUSÃO

O nosso comportamento na vida diária, no lar, na Igreja, no trabalho e na sociedade reflete o que há em nosso coração, e isso mostra por si só quem domina a nossa mente. Há pontos na fé cristã que são inegociáveis, e quem é dominado pelo Espírito não abre mão de sua fé nem cede um milímetro sequer de sua fidelidade a Deus. É esse espírito que domina a mente dos crentes fiéis em Cristo Jesus.

O aluno ou professor mais atento percebeu que o comentarista, em momento algum da lição, ligou diretamente o assunto estudado ao tema do trimestre. Porém, nas entrelinhas é isso que neutraliza a atuação maligna na igreja. A ortodoxia, a ortopraxia, a alegria, a comunhão e buscar ter a mente de Cristo nos torna cada vez mais infensos ao pecado e ao Diabo.

Até mesmo entre os crentes há mentes cauterizadas, que se tornaram voluntariamente impermeáveis à Palavra de Deus, sendo praticantes do pecado enquanto pensam seguir a Cristo. É uma versão piorada do pecador não arrependido e nem entregue a Cristo. Este último muitas vezes é ignorante a respeito das coisas de Deus. O salvo que não tem ou não busca ter a mente de Cristo poderá não chegar no Céu e sofrerá maior juízo do que aqueles que não conhecem a Deus (Mt 11:21-24), além de se tornar, pouco a pouco, um instrumento maligno às avessas para escandalizar o Evangelho.

Acesse o comentário em vídeo!

Acesse o comentário das lições anteriores:

Lição 05 – Um Inimigo que precisa ser resistido

Lição 04 – Possessão Demoníaca e a autoridade do nome de Jesus 

Lição 03 – A natureza dos demônios – Agentes espirituais da maldade

Lição 02 – A natureza dos anjos – A beleza do mundo espiritual

Lição 01 – Batalha espiritual – A realidade não pode ser subestimada

[1] Leia mais sobre o suicídio entre animais aqui

Bibliografia
TOGNINI, Enéas. Geografia das Terras Bíblicas. Campo Grande: Imprensa da Fé, 1980.
STAMBAUGH, John E. & BALCH, David L. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.
BARCLAY, William. Comentário no Novo Testamento. Filipenses.

Sobre o autor | Website

Insira seu e-mail aqui e receba as atualizações do blog assim que lançadas!

100% livre de spam.

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

2 Comentários

  1. Chalan disse:

    Muito bom tem me ajudado muito com as aulas Deus abençoe sua vida

  2. Daladier Lima disse:

    Grato, pelos acessos. Compartilhe com os amigos.