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Todo olho o verá: atitudes históricas quanto ao retorno de Cristo

Alderi Souza de Matos

Um tema essencial

A escatologia é, num certo sentido, a prima pobre da teologia. Devido a tantas confusões, distorções e interpretações estranhas que existem nessa área, ela acaba se tornando um terreno no qual muitos cristãos se sentem pouco à vontade, sendo, portanto, desprezada e evitada. No entanto, trata-se de um dos aspectos mais importantes do evangelho, por ser o ponto focal da esperança cristã, nas palavras de Paulo a “bendita esperança” (Tt 2.13), sem a qual a salvação nunca estará completa (Rm 8.24; 13.11). Por isso, ela se torna um componente imprescindível da vida e do testemunho cristão no mundo (1 Pe 1.3; 3.15).

Na teologia sistemática, é comum falar-se em dois aspectos da escatologia ou doutrina das últimas coisas — pessoal e geral. A escatologia pessoal tem a ver com o que acontece com cada indivíduo ao final da vida terrena e abrange temas como o entendimento cristão da morte e o estado intermediário, ou seja, a situação do indivíduo entre a morte e a ressurreição. Já a escatologia geral trata dos fenômenos associados ao “fim do mundo”: os sinais do fim, a segunda vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos, o juízo final e a vida eterna.

Sobre todos esses tópicos a Escritura faz muitas afirmações solenes e importantes, principalmente no Novo Testamento. As mais antigas declarações de fé da igreja, como o chamado Credo Apostólico, também deixam claro como essas questões eram vitais para os primeiros cristãos: “Creio em Jesus Cristo […] o qual […] ressurgiu dos mortos ao terceiro dia, subiu ao céu e está assentado à mão direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio […] na ressurreição do corpo e na vida eterna”.

Os cristãos e a parousia

De todas essas realidades, a mais fundamental é aquela designada pela palavra grega parousia (“presença”), usada pelo Novo Testamento para designar o retorno pessoal e visível de Cristo ao mundo. Todos os fenômenos associados com o fim dependem desse evento decisivo. Para o apóstolo Paulo essa verdade era tão essencial que ele concluiu cada um dos cinco capítulos da Primeira Carta aos Tessalonicenses com uma referência a esse elemento central da esperança cristã (1.10; 2.19; 3.13; 4.16-17; 5.23).

Historicamente têm existido entre os cristãos algumas posições pouco saudáveis quanto à segunda vinda. A primeira delas é uma atitude de negligência e descaso. O conhecido pastor canadense A. W. Tozer (1897-1963) incluiu em seu livro O Poder de Deus um capítulo intitulado “Por que somos indiferentes quanto ao retorno de Cristo”. Ele afirma que a esperança da vinda de Cristo está quase morta entre os cristãos bíblicos atuais. As pessoas podem ainda crer nessa doutrina, mas lhes falta “o jubiloso elemento pessoal”, o anelo ardente pela concretização dessa promessa.

Além dessa indiferença prática, existe uma atitude mais ideológica nesse sentido. Nos últimos séculos, muitos cristãos têm entendido que a preocupação com o “lá e então” é escapista e alienante, e que tudo o que importa é o “aqui e agora”. É o caso da teologia liberal do século 19 e de dois herdeiros seus no século 20: o evangelho social e a teologia da libertação. Ao deslocarem toda a escatologia para o presente, ao falarem de salvação prioritariamente em termos de transformação social, ao insistirem que a implantação do reino de Deus no mundo é fruto da ação humana e ao encararem o futuro sob o prisma da “utopia”, excluem-se os elementos de transcendência e de reconhecimento da atuação soberana de Deus que são tão fundamentais para a fé cristã.

O apóstolo dos gentios entendia que é não só possível, mas necessário, associar um forte senso de esperança cristã com uma intensa atuação no mundo. Depois de discorrer longamente em 1 Coríntios 15 sobre as grandiosas realidades da ressurreição, ele afirma de modo incisivo na conclusão: “Assim, irmãos bem-amados, sede firmes, inabaláveis, fazei incessantes progressos na obra do Senhor, cientes de que a vossa fadiga não é vã no Senhor” (BJ).

Os riscos do escatologismo

Se muitos cristãos minimizam o ensino bíblico sobre o retorno de Cristo e os eventos correlatos, outros há que podem se tornar obcecados pelos mesmos. Na história da igreja, a preocupação com o final dos tempos tem sido otimista ou sombria, pacífica ou militante, acomodatícia ou ativista. Indivíduos e movimentos tomados por uma forte convicção do iminente retorno de Cristo podem acabar adotando atitudes de isolamento, pessimismo em relação ao mundo e negligência de deveres sociais e cristãos.

Um exemplo antigo dessa mentalidade foi o montanismo, um movimento apocalíptico ocorrido na Frígia, Ásia Menor, no final do segundo século. Muito tempo depois, no século 16, um grupo de anabatistas radicais, igualmente motivado por fortes expectativas milenaristas, implantou na cidade de Münster, na Alemanha, uma teocracia intolerante e repressiva que chegou ao fim de forma violenta. Outro caso notório foi o dos milleritas da Nova Inglaterra, no século 19, que marcaram a volta de Cristo para 1843 ou 1844, e acabaram em grande frustração. Um grupo dos mesmos reinterpretou as predições e criou a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Os estudiosos do pentecostalismo se perguntam por que esse movimento com tamanha penetração nas classes populares não tem sido um fator de transformação social e cultural em países pobres como o Brasil. A resposta está numa teologia que, concentrando-se no além, considera o mundo irremediavelmente perdido, e que, portanto, não incentiva as igrejas a resgatá-lo, e sim a resgatar as pessoas dele. Se o objetivo é sair do mundo, não há motivação para modificá-lo ou influenciá-lo. Igualmente preocupante é a alternativa proposta pela teologia da prosperidade.

Por outro lado, alguns cristãos têm demonstrado, ao lado de uma firme esperança quanto à parousia, uma atitude construtiva no que se refere à atuação cristã na sociedade. Em sua reflexão apocalíptica, o abade calabrês Joaquim de Fiore, do século 12, teve uma visão otimista de uma sociedade igualitária e cheia do Espírito que influenciou o pensamento político da Idade Média. Outro exemplo relevante é o de Jonathan Edwards, um pastor e teólogo americano do século 18 que viu nas promessas bíblicas do retorno de Cristo um poderoso incentivo para o cumprimento da missão da igreja em um sentido holístico, integral.

Um desafio para hoje

Vivemos em um tempo no qual as preocupações com a possibilidade do “fim do mundo” escaparam da esfera religiosa e se instalaram na mídia, na literatura secular e até mesmo na ciência. Muitos ficam a imaginar o que poderá acontecer se armamentos nucleares caírem em mãos de extremistas. As crescentes agressões ao meio-ambiente têm despertado temores de catástrofes naturais em proporções inéditas. Ainda recentemente, periódicos de grande circulação anunciaram previsões científicas do possível impacto de um asteróide na terra dentro de algumas décadas, com efeitos imprevisíveis.

Os “cristãos bíblicos”, para usar a expressão de Tozer, precisam retornar às Escrituras e refletir de modo cuidadoso e equilibrado sobre os seus ensinos acerca da volta do Senhor e suas implicações. Apesar das dificuldades e mistérios que cercam o assunto, trata-se de um elemento crucial para a cosmovisão cristã. A fé em um Deus todo-poderoso, providente e redentor pressupõe uma visão linear da história, com seu início, meio e fim. Esse fim será tanto uma manifestação de juízo quanto de redenção. Para os cristãos, certamente é um motivo de regozijo e um incentivo para viverem vidas frutíferas e solidárias, enquanto mantêm os olhos fixos no autor e consumador da sua fé.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. Autor de A Caminhada Cristã na História — a Bíblia, a igreja e a sociedade ontem e hoje. <asdm@mackenzie.com.br>

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